Rosa Godoy (*)
Quem já parou para pensar no conteúdo ideológico das cantigas de roda e de ninar, aquelas musiquinhas inocentes e carinhosas que conhecemos desde a infância? Outro dia, recebi um e-mail (de autor desconhecido) muito interessante sobre o assunto. A remetente diz ser uma estudante brasileira que mora nos Estados Unidos e trabalha como babá. Transcrevo aqui parte deste e-mail, com comentários.
“Ao cuidar de uma das meninas de quem sou babá, uma vez cantei “Boi da cara preta” para ela dormir. Ela adorou e sempre pede para eu cantar a música ao colocá-la na cama. Antes de adotarmos o 'boi, boi, boi…’ como canção de ninar, a canção que cantávamos (em inglês) dizia algo como: Boa noite, linda menina, durma bem/ Sonhos doces venham para você/ Sonhos doces por toda noite”…
Uma das vezes que cantava o Boi da Cara Preta, eis que Mary Helen me pede para explicar o que as palavras da música queriam dizer. Vocês se lembram, a letra da música é: 'Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta…’
Fiquei em palpos de aranha. Como eu ia dizer para ela que, na verdade, a música significava uma ameaça horrorosa e mordaz de um monstro que quer pegar uma menina que tem medo? E, cá entre nós, que deve mesmo ter medo… Além do preconceito contra tudo o que é preto, é claro… Me senti melhor inventando uma tradução qualquer… A partir daí, comecei a pensar em outras canções infantis e minha ansiedade aumentou: Que tal 'nana neném que a cuca vem pegar…’? Caramba, outra ameaça! Agora com a cuca, um ser ainda mais maligno que um boi preto! …”
A mensagem continua e resolvi também pensar sobre o assunto. Para começar, busquei uma canção infantil do folclore brasileiro que fosse positiva, que trouxesse alegria e paz quando cantada. Como a remetente, quase nada encontrei, só desgraça. Vamos examinar algumas letras e buscar seu conteúdo ideológico. Pasmem, é de arrepiar… Boa parte dos comentários são da estudante, aos quais acrescento também minhas observações:
1. Atirei o pau no ga-to-to/ Mas o gato-to-to não morreu-reu-reu/ Dona Chica-ca-ca admirou-se-se/ Do berrô, do berrô que o gato deu/ Miaaau!
Propalando falta de respeito para com os animais, esta letra incita a violência contra criaturas inocentes, exaltando o sadismo. Dona Chica ainda se espanta com o berro do gato…
1. Eu sou pobre, pobre, pobre/ De marré, marré, marre/ Eu sou pobre, pobre, pobre, De marré de si. Eu sou rica, rica, rica/ De marré, marré, marre/ Eu sou rica, rica, rica/ De marré de si.
Trata-se da naturalização das desigualdades sociais pois os versos colocam (e exaltam) a realidade da vergonhosa distribuição de renda dos brasileiros, que condena muitos à miséria e agracia pouquíssimos com uma riqueza exorbitante. E isto, docemente, brincando de roda.
3. Vem cá, Vitu! vem cá, Vitu!/ Vem cá, meu bem, vem cá, vem cá, vem cá! / Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! / Tenho medo de apanhar.
A música fala do medo da violência embora Vitu tenha sido chamado carinhosamente! Como se trata de um cachorrinho, novamente incita a violência em relação aos animais. Que se dirá, então, em relação aos humanos!
4. Marcha soldado,/ Cabeça de papel! / Quem não marchar direito, / Vai preso pro quartel. O quartel pegou fogo/ Francisco deu o sinal/ Acode, acode, acode, a bandeira nacional..
De novo a ameaça, o autoritarismo e o abuso de poder escondidos em versos aparentemente inofensivos…E a cabeça de papel não significaria falta de capacidade para pensar, característica mor dos “soldados” que apenas recebem ordens e devem cumpri-las sem pestanejar? Tem mais uma coisa: no auge do incêndio devemos salvar a bandeira. Sem qualquer ameaça ao amor à pátria, devo perguntar: as pessoas que de danem, que sejam deixadas ao sabor do fogo?
5. A canoa virou,/ Foi deixar ela virar,/ Foi por causa da (nome de pessoa) / Que não soube remar. Tililim pra cá, tililim pra lá, a (nome da pessoa) é velha e não quer casar…
Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças brasileiras são ensinadas a apontar o dedo e condenar quem não soube cumprir corretamente uma tarefa. Condenar alguém é mais fácil que refletir sobre as próprias fragilidades. Uma vergonha! Fora a visão do casamento como obrigatório e numa idade determinada que quando “passa”, discrimina negativamente as pessoas.
6. Samba-lelê tá doente /Tá com a cabeça quebrada/ Samba-lelê precisava
É de uma boas palmadas.
Aqui, a falta de piedade, de compaixão! Samba-lelê encontra-se com a saúde debilitada, necessita de cuidados mas, ao invés de ajuda e apoio, a música diz que ela precisa de “boas” palmadas, incutindo na cabeça das crianças a idéia de que a doença é algo errado que deve ser punido.
7. Na coletânea a seguir, a exaltação à discriminação sexual (o “uso” da mulher como objeto que se deixa, a infidelidade como prova de elevada auto-estima, a incitação à violência contra a mulher. Vejam:
Fui no Itororó /Beber água não achei;/Achei bela morena/ Que no Itororó deixei.
(A mulher como algo que se usa e descarta)
Sete e sete são catorze, /Com mais sete vinte e um/ Tenho sete namorados/ E só posso casar com um…
(Como assim, 7 namorados? Numa sociedade monogâmica? O que fazer com a licenciosidade em relação à infidelidade?)
O anel que tu me deste /Era vidro e se quebrou./O amor que tu me tinhas/ Era pouco e se acabou..
(Pena que o amor, tão bonito, tenha sido comparado a um anel de vidro que se quebra à toa. Será que o amor é tão frágil assim?)
O cravo brigou com a rosa /Debaixo de uma sacada;/O cravo saiu ferido/E a rosa despedaçada./ O cravo ficou doente,/A rosa foi visitar;/O cravo teve um desmaio,/A rosa pôs-se a chorar.
Desgraça, desgraça, desgraça!!! E ainda incita a violência nos relacionamentos afetivos (releia a primeira estrofe). Fora a submissão da mulher indo visitar o agressor e chorar porque ele desmaiou, exaltando o perdão (dela), relembrando o poder das lágrimas (dela) como solução para o mal (a briga entre o casal). Quer dizer que na hora H, a mulher só chora??? Sai despedaçada da briga e ainda por cima, na reconciliação vai visitar e ainda chora? Faça-me o favor!!!
Pois é! Assim caminha a humanidade, seja brincando de roda, seja indo para a caminha…
(*) É Enfermeira e colaboradora do JA.