João Baptista Galhardo (*)
Nunca se publicou tanta notícia ruim como ultimamente. E não é de hoje. Um jornal de circulação nacional relembrou que há um século foi noticiado que haveria sol somente por mais cem anos. E por certo os cientistas de plantão daquela época devem ter feito nefastos prognósticos sobre o planeta. E nada se concretizou, pois já expirado o prazo.
São raras as boas notícias e os artigos bem-humorados. E essa sintonia negativa é da pior influência sobre o inconsciente individual e coletivo, que recebe e processa os estímulos tal como recebidos.
Jornal recente informou em manchete que anualmente morrem mais de cinco milhões de pessoas por falhas em medicação ou erro de hospitais. E quantos são salvos? É claro que se tratando de saúde não deveria haver equívocos, mas a mídia faz questão de propagar só o que dá errado.
Antigamente não havia tantas mortes por tais erros.
Principalmente entre a população pobre que não acessava o pequeno número de médicos da cidade. Nem se socorria de hospitais. E Prontos Socorros não existiam. Os pobres procuravam as benzedeiras para se livrarem de quebranto, mau-olhado, vermes, bucho-virado, cobreiro, espinhela caída, ar, tosse comprida e outros males.
Quando criança ouvia uma vizinha se vangloriar que os filhos dela "não pegavam" doença alguma, principalmente, coqueluche, dor de garganta, gripe e resfriado. Ela colocava em cada filho um colar com dentes de alho. E dava certo. Evitava as doenças de contato porque ninguém se aproximava deles pelo cheiro insuportável que exalavam.
Dizia ela, também, que se a criança engolisse "bolinhas pretas" feitas pelos coelhos, nunca teria doença das vias respiratórias. Minha mãe jurou até morrer que nunca me deu o tal "remédio". Mas como ela negava e ria e como eu nunca tive gripe, permaneço na dúvida.
Toda família tinha no quintal a sua farmácia. Arnica para ferimentos e contusões. Barbatimão e folha do tomateiro para limpar e cicatrizar feridas. Era tiro e queda. Tiro e queda ainda a camomila como calmante e para baixar a febre. Carrapicho, chapéu de couro, erva cidreira. Da mesma forma o chá de guaco com mel para bronquite. A jurubeba. O limão. Losna. Pata de vaca. O milagroso chá de poejo, sem falar do boldo para o fígado.
E muitas simpatias. Como queimar palmas bentas para afastar tempestades perigosas. Ficar três vezes de cabeça para baixo numa porteira para curar caxumba.
Cheirar barbante queimado para amenizar sinusite.
Os médicos da cidade eram clínicos gerais. Hoje há especialista para cada parte do corpo. Até para a alma. Mas para o cliente médico bom é o que acerta. Aquele que cura. Justiça seja feita. Muitas vezes não cura pela indisciplina do doente.
Numa cidade chegou um médico prometendo milagres. Dizia sua placa "Curo qualquer doença. Se não conseguir devolvo em dobro o que pagou".
Gervásio, um albino de cabelo vermelho, daí o seu apelido de "Ruivão" resolveu tirar um sarro do milagreiro.
Marcou consulta. Fez a ficha. Foi atendido.
– Se o senhor não me curar devolve meu dinheiro em dobro?
– Claro que sim… qual o seu problema?
– Não sinto cheiro nem gosto de nada.
O médico fez o que todos fazem: pressão, pulso, ouviu o peito, diga trinta e três, viu a língua e com a lanterninha de procurar formiga, examinou ouvido, nariz e garganta. Em seguida chamou a enfermeira.
– Dona Alzira traz o potinho número treze. Abra a boca e fecha os olhos, pediu ao Ruivão, que obedeceu. Encheu uma colher do conteúdo do pote e colocou na boca do Gervásio, raspando a colher entre os seus dentes.
– Doutor!!! O que senhor me deu é merda!
– Viu só, você já está bom. Curado. Recobrou olfato e paladar. Pode ir.
Ruivão jurou vingança. Retornou um mês depois.
– O Senhor de novo? Disse o médico.
– Eu? Não conheço o senhor. Nunca estive aqui…
– Está bem. Qual o seu problema?
– Eu perdi a memória.
"Dona Alzira traga o potinho número treze.
– O treze não. Eu sei o que tem dentro.
– Fantástico, como voltou depressa a sua memória a consulta terminou.
Depois de algum tempo…
Retorna o Ruivão.
– O que foi desta vez seu Gervásio?
– Doutor eu perdi minha vontade sexual.
– O senhor perdeu a libido? 0 tesão?
– É isso aí…
O médico fez os procedimentos de costume. Desta vez acrescentou (estava demorando): você precisa emagrecer. Fazer caminhadas. E deu para ele a pirâmide dos alimentos que o cliente olha e não sabe se é para comer mais os de cima ou os da base.
Chamou a enfermeira: "Dona Alzira traz o potinho…
– Nesse instante o Ruivão ficou bravo. Pulou da maca e disse: "se for o treze juro por Deus, eu fecho a porta e só saio daqui depois de estuprar o senhor e sua enfermeira.
E o médico sorrindo, lhe disse: "fenomenal. Pode ir embora. Que rapidez… você recuperou o apetite sexual".