De início, informo aos prezados leitores que minha crônica de hoje não tem nada de engraçado. Escrevi para dar bronca. Não me conformo que os jornais estão escrevendo "sobre cartas com pó branco que têm antraz".
Acontece que a doença grave que pode estar no referido pó branco se chama carbúnculo. Peço que os leitores tenham paciência neste assunto chato e eu espero conseguir ser claro em minha explanação.
Já curei muitos e muitos casos de ANTRAZ aqui em Araraquara e posso afirmar aos leitores que se trata de uma doença banal. Antraz é uma variedade de furúnculo.
Eu não queria usar o presente espaço jornalístico para falar sobre isto, mas não posso evitar de falar, porque os jornais estão confundidos e confundindo o povo, podendo gerar um pânico a mais.
Nas primeiras publicações, percebi a confusão, mas fiquei quieto, achando que os jornais iriam fazer a correção, mas isto não aconteceu. Quando surgiu um episódio aqui em Araraquara, havendo até interdição da Faculdade de Odontologia, passei a encarar que o esclarecimento deveria ser passado ao público.
O micróbio do pó branco se chama "Bacillus anthracis". Ele tem uma capacidade incomum de ficar seco, numa forma chamada "esporo" e sobreviver sem água por vários anos, mesmo que estiver dentro de um vidro cheio de qualquer pó branco, preto ou colorido. A doença que o "Bacillus anthracis" provoca se chama "ANTHRAX" lá nos Estados Unidos. É uma doença gravíssima que ataca o gado, o carneiro e outros mamíferos e pode atacar o pulmão do homem de forma mortal.
Vejam o quadro número 1, ao lado, tirado da enciclopédia americana Webster, que é o papa dos dicionários de inglês. Nele está escrito que "Anthrax é uma doença infecciosa grave do gado, dos carneiros e outros mamíferos, inclusive o homem, causada pelo Bacillus anthracis".
Essa doença, aqui no Brasil, tem o nome de CARBÚNCULO, e era assim que nossos jornais brasileiros deveriam estar escrevendo. Traduziram para ANTRAZ, pela semelhança das palavras, mas ANTRAZ aqui no Brasil é outra doença. Antraz é doença benigna e carbúnculo é doença grave.
Como disse no terceiro parágrafo deste, já tratei de dezenas e dezenas de casos de ANTRAZ aqui em Araraquara. Antraz é aquele tipo de furúnculo com vários furos saindo pus, feito um chuveirinho, geralmente na nuca. O micróbio do antraz é o "estafilococo", que causa também as espinhas do rosto dos adolescentes, não mata ninguém e não pode ser transportado no meio de um pó dentro de um envelope.
Minhas explicações estão comprovadas nos recortes 2 e 3, tirados de um dos mais clássicos livros de Medicina, dos autores T. R. Harrison e M. M. Wintrobe.
Estou achando muito importante corrigir a confusão que os jornais estão fazendo. Imaginem uma pessoa, nestes dias, sendo atendida num dos postos de saúde e o Médico dizer que a doença dela é antraz. Surgirá um pânico motivado pela tradução mal feita.
Tenho edições da década de 70 do popular dicionário do Aurélio, onde as definições de antraz e carbúnculo estão corretas. Nas edições mais recentes, porém, aconteceu um lapso e as duas definições saíram invertidas.
A confusão também está sendo causada em virtude de publicações médicas que chamam o carbúnculo de "antraz maligno". Isto não é bom, porque pode induzir pessoas à confusão.
O BOM MESMO É DIZER ANTRAZ PARA OS FURÚNCULOS TIPO CHUVEIRINHO E CARBÚNCULO PARA A DOENÇA MORTAL.
Preciso esclarecer aos meus diletos leitores a parte mais curiosa da questão. Na quinta-feira dia 1 de novembro, eu conversei com o redator de um dos jornais diários locais para me propor a dar tal esclarecimento. Ele me respondeu que me daria um retorno, que não ocorreu até hoje.
No sábado dia 3 de novembro, fui pessoalmente à redação de outro jornal diário local, dei os esclarecimentos e até tiraram minha foto, mas não publicaram os esclarecimentos.
No domingo, dia 4 de novembro, mandei estes esclarecimentos por FAX à Folha de São Paulo, seção "painel do leitor", mas não publicaram.
No dia 6 de novembro, durante a entrega do título de cidadão ao Governador Itamar, falei lá na Câmara com uma jornalista local, que trabalha em correspondências jornalísticas e ofereci a ela tais informações. Ela me disse que passaria em meu escritório para pegar meus esclarecimentos e os recortes ao lado para publicá-los, mas não passou…
No dia 7 de novembro, mandei outro FAX à Folha, mas não recebi nenhuma resposta, nem houve nenhuma publicação. Estranho desinteresse, apesar de eu ter escrito que já fui Diretor do SESA.
Assim sendo, somente me restou o aproveitamento deste espaço no J.A. para debater essas definições antes que algum mal-entendido crie problemas na mente de nossos conterrâneos araraquarenses.
Ficam aqui, portanto, as palavras jornalísticas ideais: Antraz é um furúnculo tipo chuveirinho, que não mata ninguém, cujo micróbio é chamado estafilococo, que não sobrevive em nenhum pó. Carbúnculo é o "anthrax" americano, cujo micróbio é chamado "Bacillus anthracis", que pode viver num pozinho por vários anos e mata os homens que respiram tal pó.