O dia é uma segunda feira de novembro de 1998, por volta de 10 da manhã. A porta se abre e ela entra: "Oi, professora, vim me apresentar. Sou Iara, diretora da Divisão de Creches". Eu, que estava na Coseas há menos de um mês, ainda não tivera a oportunidade de conhecê-la, pois quando cheguei, ela estava de férias, substituída pela Tutinha.
De Iara eu havia ouvido falar muito, mesmo antes de colocar os pés na Coseas. Para as mães de creche, da Escola de Enfermagem (de onde eu vinha), era uma pessoa muito competente, embora brava, exigente e de pouca conversa. O que diziam era que em se tratando de creche, criança e Cia, com ela não tinha muita discussão: era pão, pão, queijo, queijo… nada de milongas ou delongas.
Agora, finalmente, eu ia conhecer a "fera". Porém, a maneira súbita como ela entrou na minha sala, só me deu tempo para lembrar de relance estas coisas e para sentir aquele friozinho na barriga que sinto todas as vezes que a vida me pega de surpresa.
"Ah, então você é a Iara? Muito prazer, finalmente a conheço", respondo, lhe dando um abraço que foi prontamente correspondido.
"Também já ouvi falar muito de você e acho que vamos nos dar muito bem. Olhe, estou na Coseas há mais de trinta anos, conheço tudo por aqui e posso ajudá-la no que precisar".
Puxa, até que para fera, ela é bastante simpática, pensei, enquanto respondia com sinceridade à sua oferta.
"Que bom, tenho certeza que vou precisar muito mesmo de você, obrigada. Vamos tomar um café?"
A partir daí, a conversa rolou solta. Sua franqueza nordestina me colocou diante de uma pessoa realmente forte e determinada, que de "fera" tinha a coragem e a determinação para pagar um boi para entrar numa luta e uma boiada para não sair dela.
Nunca mais paramos de tomar aquele café matinal juntas, todas as vezes que estávamos as duas na Coseas. Levamos a sério o compromisso de parceria assumido ali, mesmo parecendo que aquelas poucas palavras tivessem sido apenas uma conversa quebra-gelo de quem estava se conhecendo naquele instante.
Da Diretoria da Divisão de Creches para a Vice-coordenadoria foi um pulo quase natural. Eu precisava de uma vice, tinha feito este acordo com o Reitor. E ela, na verdade, desde o primeiro instante funcionou como sendo, colocando-me a par do jeito de ser da Coseas e das pessoas.
Começamos a trabalhar juntas, enfrentando desafios, dificuldades, prazeres e decepções, levando ombro a ombro o cotidiano e o esporádico, o que vinha e o que estava por vir. Vieram projetos, programas, das respostas de sempre às mais criativas às demandas da Universidade e da nossa gente.
Juntas, aprendemos a aproveitar ao máximo uma da outra e cada uma de si própria, dando o máximo de nós e recebendo tudo o que a vida se dispunha a nos dar.
Claro que às vezes discordávamos, sendo ambas de personalidade forte e teimosas como só nós. Porém, se as concordâncias eram boas, as "brigas" eram ótimas, pois a cada colocação de uma, a outra reagia com veemência e mais fortalecida nos seus argumentos. Eram verdadeiros duelos. Finalmente chegávamos a um ponto comum, cedendo aqui e lá, procurando o entendimento, acima de tudo. No final, o almoço junto ou até o cafezinho selava os acordos e desacordos. Ficavam os pontos de convergência e mais que tudo, o respeito mútuo que crescia a cada episódio deste tipo.
Não me recordo de alguma situação que não tivesse sido superada ou que tivesse sido mal resolvida ou ainda, que se mal resolvida, que não tivesse sido revista e reconsiderada.
O conhecimento de Iara a respeito da Coseas, dos coseanos, da dinâmica das relações que aqui se estabelecem sempre foi fundamental para que as idéias se tornassem realidade. Era o passaporte para encarar as situações e os desafios, das mais simples às mais complexas. Até suas broncas e maus humores serviam para provocar mudanças e para rever posições, tanto as nossas como as dela. Quem nunca levou uma bronca, que se manifeste. De minha parte, levei muitas, sempre seguidas de uma reconsideração, de uma palavra de ânimo e carinho. Às vezes, ela se lembrava de que eu era a coordenadora e até pedia desculpas, ao que eu invariavelmente dizia, brincando: "Ta bom, deste vez passa…" e morríamos de rir. Imaginem vocês se eu ia contestar a sabedoria e a experiência de quem era a verdadeira história viva da Coseas! Tinha mais era que aprender com ela mesmo.
Com relação às idéias, eram tantas que se fôssemos colocar todas em prática teríamos que passar os próximos 20 anos à frente da Coseas, sem inventar nada novo pois a cada dia conseguíamos vislumbrar uma nova possibilidade, um novo tema, uma nova maneira de tornar a Coseas uma unidade de destaque na USP e fora dela.
Este ponto para Iara era o mais precioso – seu amor pela Coseas e pelos coseanos era tamanho que mesmo enfraquecida pela doença, para ela era o trabalho era primordial. "Pode deixar comigo que dou conta" era a frase que eu ouvia com mais freqüência. "Não me poupe, Rosinha, me dê trabalho!" E eu a atendia prontamente, pois sentia que ela vibrava diante da perspectiva de realizar uma coisa nova, significativa. Um novo trabalho ou uma nova tarefa, por pequena que fosse, era sangue novo para ela, era vida. Na última conversa que tivemos senti que tranqüilizou quando eu disse que na Coseas estava tudo bem.
Aprendi muito com ela, seu legado de trabalho, garra, determinação ficará sempre comigo e com as pessoas que com ela tiveram a felicidade de conviver. A porta da sua sala, sempre aberta para todos, é o testemunho mais evidente disto. E assim continuará sendo. Sua força entrou em nossas veias e aí permanecerá, fazendo frutificar nossa vontade, nos dando ânimo para enfrentar os desafios e as dificuldades. O vazio deixado pela sua ausência física será compensado pelo muito que nos deixou em termos de afeto, conhecimento, experiência e vontade de viver.
Para mim, sua companheira de trabalho, amiga, irmã, filha, aluna, continuará sendo a companhia boa e significativa de todos os dias, da hora do cafezinho ao final da tarde e, às vezes, noite adentro, pois continuarei carregando-a na lembrança e no coração. A dor inevitável da saudade será compensada pela felicidade de ter podido conhecê-la e conviver com ela durante estes maravilhosos 6 anos, 8 meses e 27 dias em que sou da Coseas. Para mim, se Iara tivesse que ser traduzida em poema, ela seria assim:
Não sei (Cora Coralina)
Não sei…
Se a vida é curta ou longa
demais pra nós,
Mas sei que nada do que
vivemos tem sentido,
Se não tocamos o coração
das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro
mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta, nem
longa demais,
Mas que seja intensa,
verdadeira, pura…
Enquanto durar."
Obrigada por tudo e até
algum dia, quando, tenho
certeza, voltaremos a nos
encontrar!
Rosa Godoy
(Coordenadora da Coseas)