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Casos da vida

João Baptista Galhardo

Minha tia Mercedes veio me oferecer uns ingressos para uma feijoada beneficente. Embora com certa idade ela é bastante vaidosa…no que está certa. Mostrava-se indignada com a falta de sutileza do cirurgião plástico que acabara de consultar. Perguntou ao médico: doutor com meu nariz dá para fazer um igual ao da Ana Paula Arósio?

– Dá sim, dá pra fazer três, disse o profissional.

A vida é assim. Se prestarmos atenção, a todo instante acontece ao nosso lado uma história engraçada para melhorar o nosso astral. É preciso ver o que há de alegre na vida, procurando mudar o que há de triste. Ou evitar tristezas desnecessárias. Para fugir de programas desagradáveis da televisão basta usar o controle remoto. Aliás a peça mais importante do aparelho. E para ler tão somente o que gosta basta o livre arbítrio de cada um. Simplesmente não leia. E divirta-se com os casos engraçados que o dia a dia oferece.

Miguel Salada compadre do meu pai, espanhol que nunca fez questão de aprender bem o português, estava no telefone:

– Olá Pedrito. Venga en mi casa, tomar una bagaceira? Estoy com Manuelito, Gonçalon e Savedra. Viene?

– Non puedo. Estoy con gonorréia.

– Bueno, se és tu amigo, traga también.

Cicero, um nordestino, foi tentar a vida no Rio de Janeiro. Um conterrâneo lhe arrumaria emprego de garçom num restaurante de Copacabana. De madrugada chega na rodoviária arrastando uma mala de papelão, louco para chegar na casa do amigo. Sem conhecer ninguém. Apenas com o endereço no bolso. No ponto um único táxi. Ele vai e bate na janela do motorista, lendo jornal e com um palito na boca.

– Que deseja?

– Eu vim de muito longe. Por favor quero ir pra Copacabana.

– São cem reais.

– Mas é muito caro.

– Muito caro? Está chovendo. Não vou tirar meu carro assim, à toa. Cem reais ou não enche o saco.

O coitado, na chuva, abriu a mala, contou tudo o que tinha. Não atingiu setenta reais. Mostrou para o motorista e só pela cara feia não perguntou mais nada. Foi de ônibus. Passado um tempo ele ganha a Mega Sena. Compra um apartamento duplex. E adquire o restaurante onde trabalhava. Dá uma chegada na sua terra natal para ajudar parentes e amigos e retorna para o Rio agora de avião. Reconhece que o último táxi da fila de trinta era justamente aquele da rodoviária que três anos antes lhe deu o maior esculacho deixando-o na chuva. Aí teve uma idéia genial de vingança. Foi no primeiro da fila.

– Dou-lhe trezentos reais para me levar até Copacabana. Antes, porém, quero que pare num motel, vista uma saia, passa um batonzinho na boca, coloque uma peruca e seja minha mulher por meia hora. Meu sonho de consumo é faturar um motorista de táxi com traje feminino.

O taxista ficou muito bravo. Quando ia pegar uma arma no porta-luvas, Cícero disse: calma, calma. Vou tentar o próximo.

E assim foi com mesma conversa abusiva até o vigésimo nono que também não topou é claro. Mas dizendo a todos que conseguiria um. Chegou no último. Justamente o que lhe tinha sacaneado:

– Me leva até Copacabana?

– Claro meu amigo. O que houve com os colegas que estão todos exaltados? – Nada. Seus colegas são uns ladrões. Pediram quinhentos reais. É uma ladroeira. Eu pago duzentos. Você me leva?

– É claro que eu levo!

– Muito bem. Eu sabia que ia arrumar alguém. Então vamos. Agora, vai buzinando aí para turma ver que eu encontrei um cara honesto como você.

O taxista sai tocando a buzina, com o passageiro Cícero gritando na janela: olha que beleza, eu consegui, eu consegui!.

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