João Baptista Galhardo
Vi na casa dos meus avós, assando numa chapa de ferro de um fogão à lenha, uma cabeça de galo com enorme crista. – Pra que isso vô? – É para o Mauro comer. É simpatia para deixar de fazer xixi na cama. Afinal ele já estava com cinco anos de idade. A mesma que eu tinha. Antigamente a cidade, de pequena população, contava com poucos médicos. As famílias pobres que se socorriam do único “Posto de Saúde” e numa emergência, das simpatias, remédios caseiros e das benzedeiras. Lembro dos meus pais fazendo simpatia para um irmão de ano e meio perder o medo de andar. Meu pai segurava por uma mão, fazendo-o caminhar e minha mãe vindo atrás com um machado simulando machadadas. E a cada uma delas perguntava: “o que eu corto?” E meu pai respondia: corta o medo. – O que eu corto ? – Corta o medo. O que eu corto…. Dias depois a criança andava com firmeza. A simpatia, nesse sentido, é a ação ou ritual com o uso ou não de determinado objeto praticado supersticiosamente (ou com fé) com a finalidade de conseguir algo que deseja. E o benzimento é a indução com boas palavras a alguém, desejando com fervor, com culto ou não, proteção ou cura. Diziam as benzedeiras que “Deus é quem cura”. A cidade teve famosos benzedeiros: Onofrão, D. Virgínia, D. Amélia, o Senhor Alho e muitos outros. Quando criança ouvi muito benzimento para mau jeito: “Te curo de carne quebrada, torna-te a soldar/ Nervo torto torna a seu lugar/ Nervo retorcido, Deus que te põe onde nasceste/ Eu que te benzo. Deus que te cura/ Onde eu ponho as minhas mãos, Nossa Senhora dá santidade/ Deus queira curar esta quebradura/ Esta rendidura que esse pobre enfermo tem/ Seja pelo amor de Deus, seja tudo. Amém!! Contam, em verso, a história de um rezador conhecido como Zé Raimundo: “Seu Dotô, eu num lhe engano/ eu tenho mai de trinta ano qui moro nesse lugá/ Dou-lhe a palavra de home, se num qué morrê de fome, vá vivê na capitá/ A coisa aqui tá isquisita/ o povo num aquerdita in receita de dotô/ Já é costume da gente, quando argém istá duente, chama logo o rezadô/ Com a fé no coração e três gáio de pinhão, três vez rezando incruzado lhe garanto/ Zé Raimundo dêxa quarqué muribundo bonzinho, forte e corado/ Panariço e sete côro/ firida braba e friêra/ murdidura de bisôro/ má de izipréla e cocêra e tudo quanto é firida/ Cum êle num tem gogó: Essa história de agunia, quebranto, oiado, três-só, injôo e manicunia/ Sarna, bixiga e sarampo/ ligêro como relampo, cura da noite pru dia/ Purisso qui o pessuá só procura Zé Raimundo/ Ele aqui nesse lugá, é primêro sem segundo/ Inquanto hové rezadô ninguém liga pra dotô, nem que venha do ôtro mundo/ POIS O PRÓPRIO ZÉ RAIMUNDO, NO TEMPO QUE AQUI CHEGÔ, MOSTRAVA PRA TODO MUNDO SEU DIPROMA DE DOTÔ/ E QUAJE MORRE DE FOME/ PRECISÔ MUDÁ DE NOME E TREINÁ PRA REZADÔ”. A verdade é que a fé ajuda e não estorva. Principalmente fé em Deus e em caso de saúde também no médico escolhido para o tratamento. A interação entre paciente e médico é meio caminho andado. E por que não também entre benzido e rezador onde não houver doutor? O homem é aquilo que ele pensa que é. Existem mais doentes do que doenças. Sem fé não há otimismo, confiança, esperança, saúde, amor, paz e harmonia. A vida nada mais é do que a fé em ação. Essa é a lei da vida. Não importa o apoio procurado, principalmente quando for o único encontrado. Com fé e confiança consegue-se o desejado. E quem não tem um São Benedito na cozinha com um pouquinho de café ou pinga ao lado, para manter fartura no lar? No bar São Benedito o proprietário exigia que todos que bebessem pinga, dessem um pouco ao santo, para ele não ficar bravo. Um freguês pediu uma pinga. O dono do bar falou: “não esqueça do santo”. Ele tomou de uma vez e deu uma banana para o santo, ficando imediatamente, como castigo, com o braço completamente duro e dobrado. O proprietário, como não era a primeira vez que isto acontecia, pediu para os freguezes presentes (os de sempre) rezarem conhecida oração para que o braço do homem voltasse ao normal. O que foi feito e conseguido. Braço amolecido. Um velhinho que a tudo assistia foi ao balcão e pediu uma pinga. Dose dupla. Ao levar à boca foi advertido para não esquecer do santo. Tomou num gole só. Baixou as calças e com o “peru” de fora disse: – Aqui pro santo!!! Como castigo teve o “bráulio” imediatamente enrijecido apontando para o alto. Olhou sério para os presentes, sacou o revólver da cinta e gritou: “SE ALGUÉM REZAR EU MATO”.