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Doce Indecência

Antonio Delfim Netto

Com a elevação da SELIC para 19,5% semana passada, o Brasil voltou a liderar a corrida dos países com maior taxa de juros do mundo (13.2% ao ano em termos reais!), deixando para trás a Turquia. Se aceitarmos a hipótese do “senta/levanta” do nosso caro Presidente, os turcos estão se mexendo mais rápido do que os pobres brasileiros na procura do crédito mais barato. No Brasil, acontecem coisas realmente inacreditáveis. Há poucos dias um economista de renome, “explicando” a elevação das taxas, disse que a valorização do câmbio produzida pelo diferencial de juros interno e externo está beneficiando o combate à inflação, o que até pode ter algum sentido em se tratando do curto prazo mas que é um enorme equívoco no longo prazo. Isso pode estar acontecendo no curtíssimo prazo porque a taxa de câmbio está fora do equilíbrio. Mas esta é uma medida de um oportunismo indecente, porque o câmbio vai voltar ao equilíbrio tão logo a taxa de juros retorne a um nível razoável: o COPOM aumenta o juro interno, reduz o nível da atividade, baixa o câmbio, enquanto castra investimentos e elimina empregos para obter um índice de inflação anual mais próximo da sua ambiciosa meta. Só que no ano seguinte tem que devolver tudo e o governo não percebe que no ano que vem ele estará lá para responder pelos equívocos patrocinados pelo Banco Central. Novamente, a exemplo dos anos 1995/99, ao dar sustentação à valorização do real, estamos embarcando numa aventura cambial que vai custar muito caro ao país.

Se olharmos os dados mais recentes da atividade econômica, da oferta de empregos e das expectativas de retomada de investimentos, podemos verificar que já estamos começando a pagar o custo dessa “marcha da insensatez” reiniciada em setembro de 2004. Não é somente o desânimo dos empresários, mas é novamente a realidade do desemprego atingindo os lares brasileiros, quando o país tinha tudo para acelerar o crescimento, dar emprego e melhorar a renda do trabalhador, sem prejuízo da estabilidade. É evidente que são pífios os efeitos dessas medidas oportunistas no resultado do combate à inflação: no período janeiro/fevereiro/março de 2005, a taxa de inflação foi praticamente igual à dos outros trimestres dos últimos seis anos. Não há nenhuma vantagem nesse tipo de combate à inflação. O que vai restar é um dramático aumento do custo econômico e social conseqüente da elevação escandalosa dos juros.

O governo do presidente Lula não tem o direito de se omitir diante dos sinais de queda da oferta de empregos. A recuperação que vem acontecendo desde o terceiro trimestre de 2003, está enfraquecendo. A gravidade desse fato é que a economia ainda não atingiu o ritmo de crescimento necessário para absorver o enorme “exército de reserva” formado no prolongado período de estagnação que precedeu o atual governo. Não é mais tolerável assistirmos, sentados, o renascimento da enorme fila de brasileiros tentando romper a barreira de entrada nos Estados Unidos, lutando desesperadamente por uma oportunidade de ocupar “os empregos que os americanos não querem mais”… na doce definição da ilustre Secretária de Estado que nos deu a honra de uma visita esta semana…

E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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