Este parceiro é o primeiro par social a nos ensina sobre afeto, convivência e respeito ao outro
Ser companheiro de aventuras, cúmplice em travessuras e construir memórias para a vida. O irmão ocupa estes e outros papeis importantes para as relações humanas. De acordo com a psicóloga e professora do curso de Psicologia da Universidade Guarulhos (UNG), Patricia Sena, o irmão pode ser considerado o primeiro par social do indivíduo. Enquanto os pais representam a figura de autoridade, proteção e cuidado, o irmão ocupa um lugar de igualdade.
“É nessa convivência que a criança começa a experimentar, de maneira concreta, diferentes formas de se relacionar com alguém que também tem vontades, sentimentos e necessidades. Entre brincadeiras, disputas, cumplicidade e reconciliações, o irmão ajuda a construir aprendizados que vão muito além da infância e contribuem para ser desenvolvidas importantes habilidades para a vida e como o indivíduo se relaciona com o mundo”, comenta Patricia.
Dividir brinquedos, o espaço e atenção dos pais pode parecer algo corriqueiro, mas essas situações representam importantes experiências. Para a professora do curso de Psicologia, é justamente no cotidiano que a criança começa a compreender que suas vontades não são as únicas que importam. “É com o irmão que se experimenta, pela primeira vez, a complexidade das relações interpessoais”, esclarece. Negociar, disputar, ceder e encontrar maneiras de chegar a um acordo são habilidades que começam a ser exercidas dentro de casa.
Essa relação também pode ser entendida como uma das primeiras vivências de aprendizagem social. Isso acontece porque a relação entre irmãos é construída em diferentes momentos da rotina e envolve emoções intensas, como carinho, ciúme, raiva e proteção.
“Ao contrário de uma interação pontual, a relação fraternal é contínua e permite que a criança viva repetidamente situações de cooperação e conflito. Esse convívio oferece um espaço horizontal onde a criança experimenta dinâmicas de igualdade, competição e cooperação e um ambiente seguro”, afirma a psicóloga.
Os conflitos, inclusive, não precisam ser vistos como como algo negativo. Perder em uma atividade, esperar a sua vez, dividir um objeto ou lidar com uma provocação são situações que pode causar frustrações, mas ajudam a desenvolver autocontrole e tolerância. Ao mesmo tempo, o irmão mais novo pode aprender por observação, enquanto o mais velho tem a oportunidades de desenvolver noções de responsabilidade, cuidado e liderança. Segundo Patrícia, essas experiências contribuem para o desenvolvimento da inteligência socioemocional.
Outro aprendizado importante está na capacidade de perceber o que se passa com o outro. Ao conviver diariamente, a criança aprende a identificar quando o irmão está chateado, irritado ou desconfortável e passa a observar sinais que nem sempre são expressos por palavras. Inclusive, ele aprende a reconhecer limites: até onde uma brincadeira pode ir, quando é necessário parar e como respeitar o espaço do outro. Essa sensibilidade pode ser levada para outras relações ao longo da vida.
Normalmente, as lições construídas na convivência entre irmãos também podem acompanhar a criança para além de sua casa. Saber argumentar, negociar, ceder, fazer acordos, pedir desculpas e recomeçar depois de um conflito são habilidades úteis nas amizades, na escola e, futuramente no ambiente profissional. “Afinal, crescer ao lado de um irmão é também descobrir que as relações não são feitas apenas de afinidades, mas de diferenças, limites e aprendizados. Entre uma brincadeira e outra, a criança começa a entender algo essencial para vida em sociedade: conviver é reconhecer que existe um outro. E que ele também merece ser ouvido e respeitado”, conclui a professora de Psicologia.
(Cristiane dos Reis Pappi – Assessora de Imprensa)