Léo Rosa de Andrade (*)
Imagino que ninguém aprecie viver em circunstâncias hostis. Não obstante, muitas das nossas cidades nos ameaçam, os bairros nos negam qualquer sociabilidade, as ruas tornaram-se um lugar de trânsito apressado para dentro de residências fechadas; casas fechadas já não nos tranquilizam.
Temos muito pouca alternativa à vida citadina. Nossa vida urbana, contudo, está ficando sem urbanidade: a civilidade anda escassa, a cortesia com estranho\as expõe a riscos. Estamos sovinas de modos afáveis. Mas não é por gosto. Em verdade nos poupamos por medo.
Vivemos um medo difuso, a violência nos vem de todas as maneiras, pode estar em todos os lugares. Não sabemos a quem temer. A agressão extrapolou do\as que ostentam a condição abastada, alcançando os pontos de ônibus, as escolas, os lares simples das periferias.
Acabou a paz social. Fazemos mais mortos por violência urbana do que o fazem as guerras civis mundo afora. E se morre por muitas formas: criminoso\as de profissão matam, policiais que viraram bandido\as matam. Mesmo policiais correto\as perdem-se, passam-se da conta, matam.
Estamos mal. “Das 50 cidades mais perigosas do mundo, um terço fica no Brasil, conforme relatório da fundação City Mayors, centro de estudos dedicado a temas urbanos. O critério para a elaboração da lista foi o número de homicídios registrados por ano em cada grupo de cem mil habitantes.
O Brasil é o país de maior presença na lista, com 16 cidades. Depois, o México, com 9; a Colômbia, com 6; a Venezuela, com 5; os Estados Unidos, com 4; a África do Sul, com 3; Honduras, com 2. Guatemala, El Salvador, Jamaica, Haiti e Porto Rico apresentam uma cidade cada um” (Mariana Barros, Cidades sem fronteiras, editado).
O documento explica que o maior risco é o de a pessoa ser atingida durante batalhas entre gangues rivais, ou seja, por “balas perdidas”. Eu acrescento que igualmente se morre por balas perdidas em batalhas entre policiais e traficantes e, suponho, por execuções sumárias praticadas por policiais.
Segue a “radiografia” das nossas cidades mais perigosas (taxa de homicídios por 100 mil habitantes e posição no ranking mundial): Maceió (80, 5); Fortaleza (73, 7); João Pessoa (67, 9); Natal (58,12); Salvador (58, 13); Grande Vitória, (57, 14); São Luís (57, 15); Belém (48, 23); Campina Grande (46, 25); Goiânia (45, 28); Cuiabá (44, 29); Manaus (43, 31); Recife (37, 39); Macapá (37, 40); Belo Horizonte (35, 44); Aracaju (33, 46).
Talvez surpreenda o fato de São Paulo e Rio de Janeiro não estarem na lista. Bem, apesar de o maior número de notícias sobre assassinatos narrarem as desditas urbanas dessas metrópoles, a maioria das cidades que sofrem com esse tipo de violência é de pequeno ou médio porte (até 500 mil habitantes).
A violência já nos atinge como um fenômeno nacional generalizado. A taxa de homicídios no Brasil nos coloca em sétimo lugar entre aqueles países onde mais se mata no mundo. São 27,1 mortes para cada 100 mil pessoas (http://migre.me/ok8xq). Esse é o “estado geral da nação”.
Muita gente considera que essa é a natureza das coisas. Uma narrativa ideológica falsa. Isso é a nossa História. Nós a produzimos socialmente excludente. Restamos socialmente complicados: temos péssima distribuição de renda, baixa escolaridade, precário sistema de saúde pública.
Estamos expostos às consequências da História. Para aliviarmos o temor das ruas, investimos em segurança privada. Segundo o Ipea, o gasto beira os 40 bilhões (http://migre.me/ok99A). A guerra particular não é a melhor opção. Talvez fosse o caso de investir essa cifra em urbanidade.
Este artigo, eu o publiquei há 15 anos. De lá para cá a violência piorou e alastrou-se para o interior. As 10 cidades mais perigosas do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, estão concentradas no Nordeste: Maranguape (CE), Jequié (BA), Juazeiro (BA), Camaçari (BA), Cabo de Santo Agostinho (PE), São Lourenço da Mata (PE), Simões Filho (BA), Caucaia (CE), Maracanaú (CE), Feira de Santana (BA). São altíssimas as taxas de homicídio, em razão, sobretudo, de disputas de facções.
Pernambuco é governado pelo PSD, Bahia e Ceará têm governo do PT (partido que se há como de esquerda). Não vejo a situação geral como culpa da esquerda, todavia, pois não foi ela que instaurou as péssimas condições sociais do Brasil. Os cinco séculos de injusta história que contamos são de responsabilidade da direita. Deu no que deu; não deu bem.
O último quarto de século, entretanto, foi gerenciado hegemonicamente pelo PT. Não há como negar-lhe parcela importante de responsabilidade. Aliás, importante ressaltar: não obstante a violência distribuir-se “democraticamente” pelo território nacional, o governo estadual cuja polícia é a mais letal é o da Bahia, que é petista. Então, a direita mata bandidos, a esquerda mata ainda mais, todavia, a criminalidade não é reduzida.
Urbanidade já não basta. A opção por mortandade não resolveu nada. Inexiste argumento moral ou econômico que justifique matar os desfavorecidos desta rica economia com a maior diferença de renda do Planeta. A direita propõe mais repressão; a esquerda discursa convivência justa. Fico com a esquerda, mas se há de cumprir a sempre adiada promessa de igualdade social, ou, na prática, esquerda e direita restarão igual.
(*) É Doutor em Direito pela UFSC, Psicanalista e Jornalista.