Vera Botta (*)
Mãe: o amor que não se esgota
O sentimento de ser mãe, inigualável me faz, em um primeiro momento, querer abraçar a todas as mães com afeto, com carinho, com cumplicidade. Com vontade de trocar confidências, de falar do passado, do presente, do futuro, de todos os pequenos e grandes momentos que fazem com que o amor de mãe seja diariamente novo. Hoje me entrego às emoções. Permito-me compartilhar com meus leitores minha história de mãe de filho único, Gustavo o melhor pedaço da minha vida, a luzinha que me acompanha nos dias sombrios e mais luminosos.
Lembranças, o que seria da vida se não a tivéssemos???
Nossa!!! Quanto tempo!!! Há 33 anos, nasceu Gustavo, o “prematurinho” da Vera, como me dizia nosso querido amigo Valter Curi Rodrigues, seu pediatra. Já falamos, entre risos e lágrimas, dos acontecimentos inusitados que cercaram sua vinda ao mundo com 6 meses e 20 dias de gestação. Gustavo quase nasceu na casa da minha mãe, minha professorinha querida de quem tenho muitas saudades. Fomos, com o inesquecível Dr. Osmar Chakur, eu, no seu fusquinha para o hospital, com muito cuidado, para “dar tempo”. Um domingo à noite, chuvoso. No exame feito, Osmar constatou que Gustavo estava sentado. Já era sossegado o meu grandão!!!
Depois de minutos de espera com todas as dores de contração, fui para o centro cirúrgico fazer uma cesariana. Temia-se o risco de se tentar o parto normal dada sua posição. Momentos que pareceram séculos. Situações que nos fizeram acreditar que o impossível acontece!!! A anestesia não pegava… foram quase 20 picadas e foi o saudoso dr. Cláudio Curti que resolveu a parada. Quando tudo parecia encaminhado, a mesa de cirurgia caiu, por descuido impensado de uma funcionária estreante que não soube encaixar bem os pinos. Osmar me segurou, com toda a força e disse-me depois que naquela noite de setembro, havia perdido boa parte dos cabelos que lhe restavam…
Nasceu!!! É menino…
Entre minhas angustiantes perguntas “será que tem nenê ai???” e essa série de atropelos, Gustavo deu o primeiro chorinho. Alívio!!! E o comentário inesquecível do dr. Cláudio “não é um choro de tenor, mas passa bem como soprano…” No corre-corre para levá-lo à incubadora, constatou-se que a central elétrica estava com defeito. E lá foi Gustavo para a incubadora substituta que felizmente o acolheu com vontade!!!
Lembranças que permanecem comigo
Suely, minha irmã querida, segurando minha mão. Paulão literalmente comendo a toalha do hospital, eu absolutamente elétrica, como se estivesse sob efeitos de muitos estimulantes. Quem de nós não vive de cenas que o tempo não consegue apagar, como se interiormente elas fossem sempre presentes??? E hoje, nesta véspera do Dia das Mães, são estas cenas que me tocam o coração e a alma. Sempre quis muito ser mãe… Todas estas ansiedades e aflições passaram a segundo plano quando pude ver, através do vidro, a carinha do meu filho. Foram 35 longas noites em que ele permaneceu no hospital. Foram dias e dias de espera… E Gustavo sempre me trouxe alegrias, uma após outra. Arteiro, daqueles de fazer as maiores diabruras e ficar quieto, fez de nossa casa o ponto dos amigos, dos encontros, do som, das confidências…
E de quantas alegrias é feito o sentimento de ser mãe???
De incontáveis. De temores, às vezes exagerados. Talvez pela ânsia louca de adivinhar formas de fazé-los felizes. De dificuldades de saber o que é certo e o que é errado. Com 18 anos, Gustavo foi morar em São Paulo. Para fazer faculdade. Lembro-me do dia em que fui levá-lo à rodoviária. Com um isopor cheio de congelados por mim preparados. E se ele passasse fome??? E a violência da cidade grande?? E como vai ser o seu dia a dia??? Às minhas inúmeras perguntas, Gustavo respondeu com seu jeito especial de ser. Deixando sempre aberta a porta da casa, do coração… Sempre foi de falar pouco… mas quando se juntava e ainda se junta à turma da faculdade ou quando o Corinthians joga, se transforma… É só emoção!!! Tempo depois, numa volta para Araraquara quando lhe perguntei se ele havia sentido minha ausência, pelo fato de ter sempre trabalhado muito e fora, Gustavo me disse tranqüilamente. “Você me preparou para a vida. Me ajudou a ser independente, tenho que te agradecer por isto”… E neste momento tive mais uma vez a convicção de que não é a quantidade, mas a qualidade do tempo que conta… Mais do que jornadas integrais, muitas vezes de cobranças e agressões, vale mais na relação com os filhos os gestos, os olhares, o deixar sempre aberto o coração para o diálogo, para o afago, para a verdade, sem dissimulações… E hoje, 33 anos passados, o sentimento sublime de ser mãe me tem dado coragem de seguir adiante, de procurar servir a minha cidade… de defender direitos de todas as mães que nutrem por seus filhos, problemas ou não, um incomparável sentimento de amor…
Meu tributo a todas as mães
Não dá para medir amor de mãe!!! Mas, com certeza, as mães de Nossa Morada do Sol querem, além das flores e versos, cartões musicais ou bilhetinhos escritos em papel de pão, ter o direito de lutar para seus filhos serem cidadãos de direito!!! Querem sua declaração de amor pelos filhos transformada em atos de vontade política para que eles possam sonhar com um futuro!!! Não interpretem a vontade de falar de minha história como egoísmo, mas como expressão de um amor que não se esgota. A todas às mães, meu abraço solidário!!! Boa semana a todos. Até a próxima!!!
(*) É pesquisadora da Uniara e colaboradora do JA.