João Baptista Galhardo
“Doutor, fui pescar e na volta para casa consegui umas ramas de mandioca. Pedi para a mulher fazer sopa enquanto ia ao bar tomar uma cachaça. Quando voltei encontrei meu sogro e meu cunhado na mesa tomando o caldo. Destampei a panela e reclamei que tinham deixado pouco para mim. Eles, inclusive minha mulher riram dizendo que para o meu tamanho era muito. Não sei se estavam ou não brincando. Peguei a espingarda e matei os dois. Recarreguei e atirei na mulher que não morreu. O senhor não acha que eu tinha razão ?” Isso faz parte do interrogatório de um réu em Júri que participei como Escrivão há muitos anos, onde ele foi condenado por duplo homicídio e tentativa qualificados. Em outro julgamento a vítima morreu porque falou demais. Na Vila Xavier, um moço com várias passagens pela Polícia, procurou um “curandeiro” que se dizia “Pai de Santo” milagreiro para que fizesse um “trabalho” para curar a irmã doente. Combinaram o preço e o Pai de Santo prometeu a cura dentro de três sextas feiras. Como o combinado não foi cumprido, o curandeiro ameaçou desfazer o trabalho e inverter a cura, complicando a saúde da doente. Para azar do curandeiro a moça morreu. E depois do enterro dela o curandeiro também, com um tiro na testa dado pelo irmão da falecida. Nos dias de julgamento, eu era um dos primeiros a chegar, com o processo, a arma do crime e o livro de atas na mão. Na primeira reunião de uma sessão, foi submetido a julgamento um réu pronunciado por homicídio e que aguardara o julgamento em liberdade. Logo na entrada do Fórum encontrei um homem procurando lugar seguro para deixar sua bicicleta. Subimos juntos a escada para o andar superior. Fiquei sabendo que ele era o réu da pauta do dia. Como havia cometido o crime embriagado numa briga de bar, disse-me que não lembrava de nada e que não sabia nem mesmo o que diria ao Juiz. Defensor nomeado. Ele não sabia sequer seu nome. Sendo-lhe perguntado, foi o Juiz quem lhe disse o nome do defensor. Nos dias de Júri, o Judiciário, com verba curta como sempre, serve de almoço aos que participam do Júri, inclusive réu, um frango a passarinho, uma farofa “do engasgo” e arroz branco. O réu absorto. Não entendia nada. Cara feia quando o Promotor falava e alegre quando o advogado ressaltava suas qualidades inexistentes. Foi absolvido. Desceu a escada comigo. Perguntei-lhe o que achara do julgamento. Disse que sofrera muito à tarde. Não via a hora do fim. Pensei que o seu constrangimento fosse em razão do vexame e da função intimidativa do processo. Que nada. Disse ele: “um pedaço daquele franguinho safado que foi servido no almoço entrou na “panela” do meu dente. Sofri p’ra cachorro. Não via a hora de conseguir um palito de fósforo para arranca-lo”. A dor de dente, por meio dia, foi a única punição que ele sofreu por ter tirado vida de alguém.