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Síndrome do etanol

João Baptista Galhardo

Faltando três dias para o mecânico "Vermeio", filho do alemão açougueiro, se casar com Cláudia, da chácara do seo Bento, foi ele procurado pela Doutora Flávia, prima da noiva, jovem advogada que sem que lhe fosse pedido foi dizer para o nubente que diante da lei seca, recentemente instalada, ele corria sérios riscos de ser encarcerado:

– Tem esse apelido por causa da sua cor. É quase roxa. Você fala enrolado, troca as letras "s" e o "c" por "x". Pronuncia Falávia e não Flávia. Vão passar a lua de mel em Santos. Se a Polícia abordar o veículo, sob sua direção, vai se convencer que você está bêbado.

– Ora, não bebo nada no casamento… Se pedirem eu "axópro o bafômetro".

– Não adianta, a infração pode ser apurada mediante outras provas, como excitação, torpor, rubor da face, fala errada, etc. Todas essas características são notórias em você.

Flávia, que antes fizera madureza, custeou o seu curso de advogada vendendo produtos de funerária e cemitério, como vasos, flores, carnês, epitáfios e santos de bronze. Depois que se formou se acha uma verdadeira exegeta (intérprete de leis). Justiça seja feita. Está se dando bem na profissão.

Vermeio foi dormir com a cabeça cheia das doidices ditas por Flávia. Realizado o casamento despediu-se dos convidados e de Kombi o casal partiu para a lua de mel. Minutos de estrada, não deu outra. A Polícia mandou parar no acostamento. Documentos?

Foram apresentados, mas, quando dirigiram a lanterna para o seu rosto se assustaram com sua cor avermelhada e sua aparente excitação. Afinal acabara de se casar.

– Não precisa de bafômetro. Você está preso por dirigir embriagado.

– xeu xargento eu não bebi.

– Taí. Não consegue nem falar direito. Está com a língua adormecida. Repita comigo: três pratos de trigo para três tigres tristes.

Ele nem tentou. Levaram-no para a Delegacia e daí para a Cadeia. A Cláudia, que ele carinhosamente sempre chamou de "Cráu" ficou no veículo vigiada por um militar. Na carceragem foi obrigado a ficar pelado.

– O que "voxeis" vão "faxer" comigo?"

– Cala a boca. Vamos fazer o que se faz com todos os bêbados.

Peladão, foi levado para uma cela no fundo da cadeia e enquanto passava pelo corredor os detentos gritavam: "põe esse homem melancia comigo". Colocaram o Vermeio embaixo do chuveiro. Quando a água fria caiu sobre suas costas, ele acordou. Sentou na cama e percebeu que tudo não passara de um pesadelo. Estava tudo bem. Porém chamou D. Zéza que organizaria a comilança na chácara e lhe passou algumas ordens. Na festa do casamento tinha coxinha, empada, barquete, mamão verde envolvido no papel alumínio com palitos espetados com salsicha, queijo e picles, cuscuz. Nas bandejas com geléia de pinga, tinha a advertência: "só para quem veio a pé ou de bicicleta". Da mesma forma as caipirinhas e cervejas. Bêbado de bicicleta… PÓÓDE. Até o brinde de braços cruzados com a noiva, Vermeio tomou Ki Suco. Guaraná lhe causa flatulência. As coxinhas que comeu foram acompanhadas de garapa ou limonada. Nada de álcool. Era visível a sua preocupação diante da excitação, rubor do rosto e a fala enrolada. A mãe o aconselhou.

– Para você ficar calminho e não parecer excitado perante a polícia, vou fazer uns dois litros de chá de poejo, erva cidreira e camomila. Beba um pouco antes de sair e leva uma garrafa para tomar uns goles durante a viagem.

Quase meia noite, viajaram de Kombi para Santos onde agendaram três dias numa pensão na praia do Gonzaga.

Nos aposentos reservados, Claudinha correu para o banheiro a fim de colocar sua camisola branca transparente para agradar o marido. Para sua surpresa ele já estava dormindo. Apenas sem os sapatos. Sob o efeito do chá, dormiu o dia inteiro. No jantar a mulher lhe aconselhou a tomar uma caipirinha para se animar.

Não. Vou dirigir depois de amanhã.

E voltou para a cama. E assim foi. Em todo esse tempo não deu um "créu" na Cráu, que voltou inteirinha para casa.

Chegaram de manhã. Ele um tanto avexado foi direto para a oficina. Tinha carro para entregar naquele dia. Ela foi à procura da prima Doutora, que após o relato providenciou uma procuração:

– Vamos pedir a anulação do casamento. Erro essencial de pessoa. O Vermeio não tem condição de arcar com o débito conjugal. Ele sofre de impotência coeundi.

– Meu Deus prima, o que é isso?

– Seu marido é broxa. Com vinte e cinco anos… tenha paciência.

Na hora do almoço a mulher lhe deu a notícia.

– Mas Cráu…foi o chá da minha mãe. É temporário…

Ela não quis saber. A ação foi proposta.

Com a ameaça da nova lei e a propaganda de que alguém pode ser preso se comer um bombom com licor e dirigir, instalou-se na sociedade uma paranóia. Tem gente que não come mais pastel porque vai pinga na massa para ficar crocante.

Eu mesmo fui ao Restaurante e comi uma bacalhoada com três copos duplos de suco de abacaxi com hortelã. O estomago virou um aquário. O bacalhau gostou tanto que ficou nadando na barriga uns quatro dias antes de ir embora.

Etanol! Etanol?

– "Etanóis" isto sim!

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