Texto: João Baptista Galhardo Júnior
Peço licença a você leitor, para "invadir" esta coluna e tentar traçar algumas linhas sobre seu autor, meu pai João Baptista Galhardo. Passou ele a escrever neste periódico após uma crônica solicitada para uma mensagem de final de ano em 2003. Ele mesmo já escreveu muito de sua infância pobre, porém, de extrema felicidade, passada ao lado de seu pai Francisco e de sua mãe Catarina, bem como de seus irmãos Lurdes, Irene, Cleide, Francisco e Antonio Carlos. Tem a história do jacaré que vivia na casa do tio dele, da mula que ele comprara na feira do Carmo, do seu amigo Nero (o cachorro), do velório do Kio (seu amigo de infância), de sua excelente relação com minha avó, sua sogra "Bepa", etc. Algumas tristes, outras muito engraçadas, e muitas mensagens de paz e otimismo. De tanto lermos suas histórias, parece-nos que o conhecemos desde criança e que sempre estivemos ao seu lado. Mas somente quem com ele convive diariamente, como nós da família, pode tentar traduzir em palavras como realmente este homem é. Digo tentar, pois não há frase que possa descrever sua personalidade. Marido, pai, sogro e avô carinhoso, protetor, parceiro, guerreiro, bravo e alegre ao mesmo tempo. Sua retidão de caráter é de conhecimento público e notório. Sempre aberto às transformações da ciência, da tecnologia, da arte, dos costumes, pronto para o novo, porém, com a coragem para criticar novidades com as quais não concorda e afastar as idéias que considera intoleráveis, sobretudo as que ferem seus princípios fundamentais de vida e esperança de um mundo melhor. Acho que este é o segredo de sua saúde física e mental. Facilidade para lidar com o diferente e vontade de aprender sobre tudo. Ensinou-nos amar os livros, mostrando que estudo e conhecimento buscados no silêncio de uma boa leitura nunca são demais. Ao mesmo tempo, jamais dispensou longas conversas e boas piadas. De vida simples, não é apegado ao luxo, gosta de curtir a família e bons amigos. Nos finais de semana, adora reunir a família no sítio, onde leva suas cachorras para passear. Guarda um amor imensurável para com esta cidade. Há mais de quarenta anos segue religiosamente sua rotina semanal, gerenciando questões jurídicas relacionadas aos imóveis de toda Araraquara, junto ao 1º Cartório de Registro de Imóveis, cujo posto mais alto galgou após dificílimo concurso público de provas e títulos. Detalhe: prestou referido concurso quando contava com mais de cinqüenta anos. Foi mais uma lição de vida para todos nós da família. Se nossa cidade é privilegiada por não apresentar favelas ou balbúrdias em sua situação urbana, devemos muito a meu pai. Quantos bairros não foram por ele regularizados, sem que recebesse em troca nada além do que determina a Corregedoria da Justiça. Recentemente, atuou na questão do imóvel da nossa Ferrinha. Agora já pensa como regularizar a retirada dos trilhos da linha férrea. Divide seus conhecimentos com qualquer um que queira com ele aprender. Sempre envolvido nas questões beneméritas da cidade, nunca gostou de aparecer. Eu não tenho dúvida de que essa coisa da idade tem a ver com o modo como lidamos com a vida. Meu pai enfrenta seus problemas de imediato, transformando os obstáculos em alavanca para o sucesso, sempre de sorriso aberto. Estes são alguns exemplos que ficam na memória daqueles que com ele convivem diariamente. Ciente de que sua missão na terra ainda está longe de terminar, com intuito de permitir que novas gerações delas venham a desfrutar, reuniu cem crônicas que aqui foram publicadas e lançará, em breve, um livro chamado "O Vendedor de Camomila". Livro este que, segundo o próprio autor, foi escrito com seriedade e bom humor. Assim é meu pai: um homem sério, mas sem perder o bom humor. Para ele, basta viver. A passagem do tempo jamais o tornou uma pessoa mais rígida, queixosa ou intolerante. Ao contrário, como um bom vinho, quanto mais o tempo passa, melhor ele fica. Nestes seus setenta anos de vida, queremos desejar-lhe muito mais saúde e paz, para que possamos, nós da família e seus leitores, continuar desfrutando desta delícia que é com ele conviver. Pai, em nome de todos: "Parabéns e felicidade. Nós te amamos muito!".