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Os Kennedys da Rua 10

Colaboração: Haroldo Lamps e Edson Tamoio

“Quando penso no futuro não me esqueço do passado” (Paulinho da Viola)

John Kennedy, o mais jovem dos presidentes eleitos nos Estados Unidos, foi assassinado em novembro de 1.963. Na época eu tinha 10 anos de idade. Naqueles dias o mundo parou para tentar entender a motivação do assassinato. As reportagens na televisão, as pessoas nas ruas e até mesmo nossos professores nas escolas repetiam incansavelmente as mesmas narrativas e ninguém encontrava razões para justificar aquele ato de extremismo, a não ser a loucura e a crueldade que muitas vezes se repete na história da humanidade, excluindo da nossa convivência a quem amamos, admiramos e que nos lideram em busca de melhores condições existenciais. Eu e meus irmãos não tínhamos idade, nem formação, para entender o que estava acontecendo naqueles dias. Muitos anos passaram-se para que viéssemos a compreender os acontecimentos de então. Assim, na medida em que fomos “crescendo” e “amadurecendo”, para nós, e acredito que para muita gente do mundo ocidental, John Kennedy transformou-se numa personalidade a ser seguida e cultuada!

No ano seguinte, 1.964, no Brasil, veio o golpe que estabeleceu uma ditadura militar vigente até 1.985, portanto toda a nossa adolescência e o início da idade adulta ficaram profundamente marcadas por esse regime de exceção.

Eu sou o terceiro filho de uma família humilde de nove irmãos. Morávamos na rua 10, no bairro do Carmo, em Araraquara. Pré adolescentes já trabalhávamos durante o dia e estudávamos à noite em escolas públicas. Felizmente, no “universo” dessas escolas, tivemos excelentes professores que estimulavam discussões sobre a situação política do Brasil e do seu futuro, assim como do mundo. A propósito, tive o privilégio de ser aluno de História do professor Rodolpho Telarolli.

No ensino médio tínhamos aulas de História do Brasil, História Geral e Filosofia. Aprendemos que nunca devem ser esquecidos os ideais da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade! Considerando a nossa origem humilde e as dificuldades de pessoas trabalhadoras em busca de um futuro melhor, estes ideais foram assimilados como nossa bandeira de luta e sempre foram e serão os fundamentos da verdadeira “DEMOCRACIA”.

Algumas pessoas da nossa comunidade não somente apoiaram a ditadura militar como também atuaram e foram “recompensados” com cargos e bons salários por essa adesão. Eu e meus irmãos nunca aceitamos a ditadura e jamais abrimos mão dos ideais do livre pensamento e dos direitos humanos fundamentais, ainda que sob o manto da opressão e do autoritarismo. Mesmo até nos momentos em que fomos submetidos ao desemprego forçado, sem amparo e sem renda para prover os recursos mínimos à sobrevivência da família, seguimos a nossa vida, com fé no futuro e sempre de cabeça erguida!

Quando penso no nosso passado, tentando entende-lo, minha mente se aviva reacendendo as chamas dos acontecimentos políticos marcantes que moldaram as nossas convicções sobre ser cidadão num mundo em transformação. Refiro-me à guerra fria, ao golpe de 64, a guerra do Vietnã, ao movimento Diretas Já e a luta pela redemocratização do país pós ditadura e a queda do muro de Berlim. Durante o transcorrer desses acontecimentos, não importava a hora e o local, inspirados pela saga dos irmãos KENNEDYS (Bobby também foi assassinado 05 anos depois de John, em 1.968), fosse na universidade, nas conversas com os colegas de trabalho, na convivência com amigos e parentes, nas discussões de “mesa de bar”, nós sempre deixamos claro que seres humanos não poderiam ser submetidos ao jugo de qualquer tipo de regime de exceção.
Devido aos longos 21 anos de ditadura, no círculo restrito do nosso convívio familiar, onde procurávamos amparo mutuo para nossas angústias, meus irmãos e eu, nos apelidávamos de “OS KENNEDYS DA RUA 10”.

Nestes últimos 41 anos, bem ou mal, a nossa DEMOCRACIA tem sobrevivido. Infelizmente, nossos círculos políticos, sociais e até mesmo nossos entornos, encontram-se infestados por falsos líderes, profetas e “influencers” que apostam na inocência dos cidadãos mais simples, com falsas promessas de paraísos eminentes, porém sob a contra partida de que somente com “autoridade” é possível pôr ordem na casa!

Assim, quando penso no futuro da nossa nação e até mesmo no futuro da humanidade, sinto uma enorme aflição por admitir e entender que nossas vidas poderão ser “controladas” por minorias autoritárias, que venham a se apoderar da revolução tecnológica, das redes sociais e também da inteligência artificial.

O que me alivia e tenho certeza continuará me auxiliando nesta luta permanente é o fato de que nunca deixei nem deixarei de ser “UM KENNEDY DA RUA 10”!

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