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O Zé Carroceiro

João Baptista Galhardo

Há muitos anos vivia num bairro desta nossa cidade, a família do “seu” Zé Carroceiro. Homem bom, pacato, trabalhador e bem humorado. Morava em casa própria com uma porta e duas janelas para a via pública. Ao lado tinha um portão de madeira, pelo qual entrava e saía com sua carroça puxada por uma égua branca. Do portão até o fim do terreno havia uma parreira de uvas. Sobrava ainda quintal onde ele mantinha uma horta para consumo próprio e venda para a vizinhança. A vida do Zé era uma rotina. Levantava bem cedo e partia para a zona rural para vender camisas, blusas, saias, linhas, botões, zíper, pentes, sabonetes, latas de óleo, farinha, sal, açúcar… Quem não tinha dinheiro para pagar à vista, comprava fiado de caderneta ou trocava com galinhas, pimentas, ovos, abóboras, mandioca, leitões ou frutas que ele vendia na feira de domingo na Praça Pedro de Toledo. “Seu” Zé era um homem divertido. À tarde, chegando em casa, guardava a carroça, soltava a égua e ia até o Bar do Monteiro, onde encontrava sua turma jogando palito. E enquanto tomava uma chiboca, contava umas piadas: “vocês sabem por que o português tem chulé só no pé esquerdo?” É porque a mãe vive falando: “filho lava esse pé direito“. Conhecem aquela: “O bêbado estava sentado na Igreja, quando o Padre perguntou “quem deseja ir para o céu levante a mão”. Todo mundo levantou menos o bêbado. O Padre disse “o senhor não deseja ir para o céu quando morrer?” – Quando morrer eu quero. Pensei que o senhor estava organizando uma caravana para hoje”. Conhecem a do Bêbado que estava no ônibus e falou: “Do motorista ao cobrador é tudo veado e do cobrador para trás é tudo corno. O motorista não pensou duas vezes deu uma forte freada, jogando uns contra os outros. Repete o que você disse! O Bêbado falou, “agora não dá mais, você misturou tudo!” Todos disputavam a companhia do Zé. Tinha sempre uma nova para contar: “o Bêbado encheu tanto o dono do bar que este colocou ácido no seu copo de pinga. Ele bebeu, fez careta, mas não reclamou. Uma noite o bêbado reapareceu para alívio do dono do bar, que pensou ter matado o freguês. Pediu uma pinga. Experimentou e disse: “desta não. Dá aquela que quando a gente faz xixi a calçada fica cheia de buraquinho”. E outra: “o médico disse para o paciente chegado numa cachaça “não consigo encontrar o motivo das suas dores. Só pode ser por causa da bebida. O paciente disse ao médico: “não tem importância doutor. Eu volto outro dia quando o senhor estiver sóbrio”. De tão bom, ninguém tinha coragem de falar para o Zé sobre o comportamento da sua mulher e das duas filhas, na sua ausência. Mal saía de casa e as três iam à janela paquerar quem passasse. E alguns entravam sob pretexto de comprar um pé de alface ou um maço de cheiro verde. Só homens compravam. Demoravam… e saiam em desalinho, deixando clara outra intenção. Seu Zé já sabia. Tanto é que tinha uma lata de tinta para borrar todos os dias de manhã as insinuações que escreviam na parede de sua casa: “abra o olho Zé”. “Zé suas filhas são umas galinhas”. “Zé seu chapéu precisa de dois furos”. “Zé estão pondo coisas na sua cabeça”. E todos os dias ele pacientemente passava tinta sobre aqueles dizeres. Até que um dia, pronto para partir com sua carroça, viu escrito “nesta casa todo mundo dá”. Aí era demais. Desta vez o Zé não apagou. Apenas escreveu embaixo: “menos eu e a égua”.

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