Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves (*)
No dia 5 de julho de 2005, o assessor parlamentar de um dos importantes integrantes da base legislativa federal do Partido dos Trabalhadores foi detido no aeroporto de Congonhas (SP), onde a fiscalização descobriu que ele tentava embarcar levando US$ 100 mil na cueca, mais R$ 200 mil, em cédulas, na maleta de mão. Justificou-se na apreensão, que o dinheiro era relacionado a um caixa dois para ajudar no custeio da campanha do deputado. Mas este acabou inocentado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), por falta de provas de seu envolvimento direto na irregularidade que feria a diversas leis. Em 2020, um senador foi surpreendido com R$ 33 mil na cueca, dinheiro que supostamente teria sido desviado do custeio da campanha de vacinação contra a Covid-19, causadora da pandemia. O parlamentar justificou que o dinheiro era seu e se destinava ao pagamento de salários a funcionários em seus negócios particulares.
Além da indignação, a transformação das cuecas em cofre para esconder dinheiro não declarado em viagens de políticos e figurões, serviu para alerta às autoridades sobre o procedimento de transportar recursos clandestinamente. No passar dos anos outras apreensões ocorreram com outros parlamentares e com portadores sem qualquer notoriedade. E tornou-se habitual a polícia procurar dinheiro vivo em todas as operações que realiza país afora.
A inauguração da cueca-cofre coincide com o primeiro governo do PT, presidido por Lula. Vêm dessa época e dos mandatos petistas seguintes (o segundo de Lula e os dois de Dilma Rousseff) crimes e irregularidades apuradas pela Operação Lava Jato e outras que acabaram levando Lula à prisão e envolveram centenas de pessoas, entre membros do governo e companhias públicas e estatais implicadas.
Hoje, o governo petista enfrenta diferentes inconformidades, destacando-se a CPI do Roubo dos Aposentados do INSS e os problemas que levaram à liquidação do Banco Master, considerado um dos maiores escândalos financeiros da história brasileira, embora ainda não tenham terminado as apurações.
Ainda dentro do esquema de transporte irregular e fraudulento de valores, circulam no meio político notícias de centenas – talvez milhares – de malas de dinheiro vivo que teriam sido transportadas para Brasília, outros pontos do território nacional e até para o exterior para pagamento de propinas de outros atos criminosos. Um vídeo gravado por um autoidentificado piloto de jatos privados está nas redes sociais com a informação de que o autor teria por algum tempo trabalhado para uma espécie de consórcio de empresários que se encarregou de distribuir dinheiro a políticos e autoridades por todo o País. Especula-se, inclusive, que a atividade teria contado com o aporte do crime organizado e corre em paralelo à questão do banco liquidado.
Embora estejamos entrando no ano eleitoral – quando o habitual seria a prioridade da execução da campanha para a renovação dos mandatos de presidente da República, governador de Estado, senadores e deputados federais e estaduais – os gabinetes dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, em Brasília, fervilham de denuncias à espera de apuração e providências. Denúncias cruzadas envolvem todos os quadrantes do Poder. A mais nova possibilidade aventada é de que os envolvidos – especialmente autoridades – estariam sendo pressionadas a solucionar os prejuízos causados pelo banco liquidado e outros esquemas irregulares. Diz-se que, por mais estranho que isso possa parecer, entramos no tempo da “República do rabo preso”, com as mais imprevisíveis consequências. Oremos para que cada coisa volte ao seu devido lugar e a Nação não seja penalizada por conta dos malfeitos.
(*) É dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)