No grego há nada menos que quatro três palavras que podem ser traduzidas como amor. Na verdade, elas definem os diferentes tipos de amor: a primeira traduz o sentido mais comum: eros, o amor-paixão, de conotação sexual, romântica. As outras são philia (amizade), storgé (afeto natural, como o amor entre familiares) e agape (o amor desinteressado, de doação sem espera de recompensa, caridade). Até por isso, a influência grega na formulação do conceito de amor foi maior do que se poderia imaginar. A prova principal disso está na expressão amor platônico que se tornou conhecida no mundo todo com sentido distorcido daquele da sua verdadeira fonte, O Banquete, de Platão, um dos textos-chaves da cultura clássica ocidental.
A obra foi escrita no séc. IV a.C., sob a forma de diálogo teatral ocorrido no cenário de uma mansão ateniense durante um symposium (título original do livro), tradição grega que nunca morreu: debate intelectual em torno de um jantar regado a vinho. Os convidados são pessoas importantes, encontrando-se entre elas Sócrates, filósofo e mestre do narrador, e o dramaturgo Aristófanes, rei da comédia helênica. O tema é o amor, ou melhor, eros, o desejo sexual, representado na mitologia grega como uma divindade matreira, que fica o tempo todo flechando o coração dos candidatos a amante. Não é à toa que o coração flechado permanece até os dias atuais como símbolo dos apaixonados.
No texto aparece pela primeira vez a idéia das “almas gêmeas” e da “cara metade”, quando Aristófanes recorre à mitologia para explicar o impulso amoroso. Conta que no início dos tempos, o homem era uma criatura andrógina de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Por ter ameaçado os deuses, Zeus dividiu-a em duas e lançou-as no mundo, separadas. Desde então, o homem está fadado à procura da sua cara metade e carrega a sensação de estar sempre incompleto, desejando a união com o outro. Sócrates, que descarta os mitos como mera superstição, rejeita a versão de Aristófanes e leva a discussão para o conceito original de amor platônico. “Eros é uma divindade, uma força divina que intervém na vida humana, mas que precisa ser orientada pela inteligência. O desejo se manifesta primeiro como amor por um corpo bonito, mas evolui para o amor por belas atividades e ocupações. O que é digno de ser amado? Essa é a questão que Platão coloca como responsabilidade do ser humano, para dar ascensão intelectual e espiritual à força de Eros”. (Souza citado por Lemos).
Por aí se pode constatar que a idéia que temos hoje de amor platônico como sendo afeição sem contato físico é errônea. Para Platão, o amor deve ser a afeição elevada a um plano ideal que transcende o contato físico, mas não o exclui. “A distinção entre corpo e alma que herdamos não existia para os gregos. Eles acreditavam numa continuidade, não numa ruptura, Mas a ascensão do amor era uma questão de inteligência e, portanto, para eles, essencialmente masculina. Os gregos tinham um grande preconceito contra a mulher.” (Souza citado por Lemos).
Por isso, para muitos, O Banquete faz apologia ao homossexualismo, não só comum entre os gregos da época e inerente à relação mestre-discípulo. Para eles, a parceria ideal, a única possível de gerar o fruto perfeito do conhecimento é a parceria intelectual, a união perfeita, sem a mácula da possibilidade da concepção. Por isso, acreditavam que este tipo de parceria só era possível entre homens, é claro. Os próprios anfitriões formam um casal masculino e, em certo momento, a festa é interrompida por Alcebíades que, bêbado e fazendo um grande estardalhaço, declara sua paixão a Sócrates. Na Grécia as mulheres ocupavam apenas o espaço do oikós, da casa, sem nenhuma presença política ou pública. Junto com escravos e crianças constituíam o grupo dos não-cidadãos.
O amor entre homens e mulheres aparece nos poemas de Ovídio (43 a.C. – 17 d.C.), romano responsável pelas elegias apaixonadas da sua obra Amores. Ele escreveu também em versos A Arte de Amar. Este verdadeiro manual de sedução foi considerado imoral pelo imperador Augusto que empenhado em uma campanha contra a luxúria, baniu de Roma Ovídio e sua própria filha Júlia, por adultério. Parece ter havido uma ligação entre a expulsão de Ovídio e a de Júlia, mas isto continua sendo apenas especulação detetivesca da história romana. Ovídio só foi vingado séculos depois, por sua grande influência sobre os trovadores medievais, os verdadeiros inventores do romantismo.
As Cruzadas haviam levado muitos nobres europeus para longe de casa, o que deu às mulheres da época um poder político inédito na história. Elas se tornaram ao mesmo tempo patronas e musas de poetas e menestréis fundadores desta nova literatura, que abrange dos romances de cavalaria às baladas e madrigais derramados de amor. A própria palavra romance nasceu com esse movimento, no sul da França, no final do século XI, originária latim vulgar romanice. Transformada em romans, no provençal, dialeto da região, passou a designar o gênero narrativo das histórias de cavaleiros e donzelas. Esse culto ao amor acabou extrapolando a poesia para se transformar num verdadeiro código de ética: o amour courtois (amor cortês) ou fin’amors (amor refinado), que na literatura englobava tudo, de versos apaixonados e debates sobre etiqueta social, a textos como o poema francês do séc. XIII Romance da Rosa, que ensina a importância dos amantes atingirem juntos o orgasmo: “Quando fizerem amor, cada um deve usar toda habilidade para que o prazer seja mútuo e que nenhum dos dois pare de navegar enquanto não chegarem juntos ao porto”.
O fervor amoroso dos trovadores medievais levou o amor a um patamar de emoção cultuada, prenunciando a adoração casta de poetas renascentistas como os italianos Dante Alighieri e Petrarca às suas musas Beatriz e Laura. O mesmo culto antecipou o romantismo do século XIX, que venerava a agonia do apaixonado acima de qualquer prazer. O significado original de paixão é a conexão inevitável entre o amor e o sofrimento. Passio é a palavra latina que significa sofrer por amor. Por exemplo, a expressão Sexta-Feira da Paixão endossa que Jesus morreu por amor à humanidade.
Também foram os velhos trovadores medievais que espalharam as sementes da visão trágica e fatalista do amor impossível, que une Tristão e Isolda a Romeu e Julieta a Werther, romance do alemão Goethe (1749-1832) que acabou provocando uma epidemia de suicídios na Europa do século XIX. O francês Sthendal define esse movimento literário em seu tratado Do Amor, autobiografia de uma paixão não correspondida: “Possuir é nada, desejar é tudo”, resumindo a idéia central de que o sofrimento intenso é sinal de uma alma sensível e o gozo, apenas frivolidade medíocre.
Existe um outro laço entre as dores dos escritores românticos e a celebração do adultério pelos trovadores medievais. Foi no mundo iniciado pela Revolução Francesa do final do séc. XVIII que as pessoas começaram a poder escolher com quem iriam se casar. Antes disso, o casamento era uma sucessão de alianças políticas e econômicas ditadas pelas famílias dos noivos, que muitas vezes só se conheciam no altar. O culto ao amour fou (amor louco), batismo dos franceses à paixão incontrolável que derruba barreiras e convenções, sempre foi uma resistência à interferência da sociedade na vida afetiva de cada pessoa.
E hoje, o que se tornou o amor? Como explicar que o romantismo continua vivo em pleno século XXI, mesmo após todas as investidas científicas – da psicologia à antropologia à bioquímica – dispostas a esfriá-lo, dissecá-lo e decifrar o que existe além da atração sexual e do instinto procriativo. As teorias psicológicas colidem: enquanto o complexo de Édipo, de Freud, propõe que a escolha amorosa é determinada na infância pelos modelos paternos e maternos, para Jung homens e mulheres carregam no inconsciente arquétipos ideais do sexo oposto, animus e anima, sempre buscando a complementaridade. Pessoas mais racionais se sentiriam, assim, atraídas por parceiros mais sentimentais. Seria a volta do ser andrógino de Aristófanes?
Descobertas científicas recentes retomam a idéia da bioquímica cerebral originando o relacionamento amoroso e a atração pelo ser amado. Seria possível? Com química ou sem química, os que amam ou já amaram só têm certeza de uma coisa: o que importa mesmo é amar, com todas as letras e se o amor for correspondido, não há felicidade que se compare à dos amantes. Têm razão, portanto, filósofos, poetas, trovadores e todos os que proclamam toda a beleza do amor. Quanto ao sofrimento, historicamente criado ou não, os amantes sabem que é inerente ao amor e é motivado pela ausência, distância ou mesmo pelo medo da perda do ser amado. Para mim, o verdadeiro e maior sofrimento é aquele da falta de a quem amar. Que o confirme quem estiver nesta condição. No restante, o mistério continua…
Rosa Godoy
(Fonte histórica: Lemos, JA. Amor. Superinteressante Online, Julho 2001)