João Baptista Galhardo
A mentira tem pernas curtas. Adágio antigo, cuja origem não se sabe ao certo, mas que significa que ela é logo alcançada ou descoberta. A mentira é sinônimo de lorota, calúnia, falsidade, farsa, embuste, trapaça, engano. Rui Barbosa na sua campanha para Presidente em 1919, dizia em seus discursos que os antigos enxergavam no mentiroso o mais vil dos tarados morais. Depois de enumerar todas as misérias de um perdido, concluíam, quando cabia: “E, até mente”. O ladrão prostitui, com o roubo, as suas mãos. O mentiroso, com a mentira, a própria boca, a palavra, a consciência. O ladrão ofende o próximo nos bens da fortuna. O mentiroso não é no patrimônio, é na honra, na liberdade, na própria vida. Tanto vai do latrocínio à calúnia, com imputação falsa e maliciosa, à difamação, atribuindo à alguém fato que lhe atente a honra ou a boa fama e à injúria, ofendendo pessoas quanto a moral, desrespeitando-as quanto ao decoro, a sua honra e a sua família. Do ladrão pode-se livrar com o cadeado, a tranca, o apito do guarda. Do mentiroso ninguém se livra, porque o enredo, a invencionice, a detração, volatilizados no ar, depois de tramados, sussurrados, cochichados são impalpáveis como os germes das grandes epidemias. O ladrão atinge senão quem possui algum bem. Já o mentiroso flecha homens e mulheres, tanto pobres como ricos, brancos, negros, amarelos, jovens ou velhos. O mentiroso é um artista, embora por pouco tempo, em alterar o acontecido ou em inventar o que não existe ou nunca existiu. Qualquer fato não é importante para o mentiroso senão a versão que ele lhe dá. Muitos no longo da História acham que é preciso mentir de vez em quando. Será? Bernard Shaw alertava: “é perigoso ser sincero, a não ser que você seja também estúpido”. Não tinha razão. A não ser que estivese se referindo às chamadas mentiras “brancas” que não maculam quem quer que seja a não ser o próprio mentiroso. É possível falar a verdade sem grosseria ou crueldade. Há pessoas que sabendo de seu instinto de mentir, se orgulham de não beber. Talvez seja pelo medo de falar a verdade ou de se trair esquecendo as mentiras já ditas. O mentiroso tem de ter boa memória, para lembrar o que falou, onde, quando e para quem. O mentiroso tem a alma castrada. Mau hálito no coração. Olho de carneiro pendurado no açougue. É sempre um fracassado, e sendo frustrado, mente para se elevar. Está sempre tentando cortar a cabeça daqueles que lhe estão em volta, para parecer mais alto. É naturalmente invejoso. Desleal e falso. Quando fala olha para o alto ou para o chão ou começa uma frase com as palavras “veja bem”…. A traição é uma característica do mentiroso. Emprestando, ainda, palavras de Rui, a natureza o fez esguio como a cegonha, para as migrações. Escorregadio como o enguia para as fugidas. Camaleão cambiante e multicor, para as adaptações das suas mentiras. Tem olho de rato e lágrimas de crocodilo. Tem o riso e o bucho da hiena, a gravidade do mocho, a imoralidade do bugio e a pele de anta. Mentira admissível só mesmo a do pescador que é feita de propósito e por brincadeira: um pescador falou para outro que ele havia pescado um lambari de um quilo. O que ouviu retrucou: outro dia eu fui pescar à noite e meu lampião de querosene e pavio caiu na água e ficou aceso no fundo. Aí eu pude escolher os peixes para fisgar.
O primeiro lhe falou “você está me gozando ?”.
Não, “se você tirar 950 gramas do seu lambari eu apago o lampião…”