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No início era o Verbo

(*) José Renato Nalini

A palavra é o que distingue o ser humano dos outros animais. Ela é mágica. Seduz, convence, exalta, enaltece e inebria. Mas também pode ferir. Machuca, deixa cicatrizes, mata os bons sentimentos.

No decorrer da História, a palavra foi o instrumento poderoso que edificou a civilização. Feliz de quem pode se deleitar com a leitura de preciosidades produzidas por espíritos superiores, cuja obra é eterna.

Ensinar a ler, a se exprimir com proficiência, a escrever, é o que muda a vida das pessoas. Por isso o letramento é tão importante. Quem não lê, não aprende a pensar. Fica trancado na indigência de um pobre vocabulário. Nossa tradição romano-helênica sempre conferiu enorme prestígio à oratória, eloquência, à retórica.

Por isso é frustrante verificar o quanto de deterioração se constata na forma de expressão de líderes de nações que se propõem a faróis culturais e democráticos para todas as demais.

A Professora francesa Béreng`re Viennot escreveu "A Língua de Trump", explorando os dois primeiros anos do Presidente americano. Constatou que, numa única entrevista, mencionou 41 vezes o termo "great" (grande). 25 vezes o verbo "win" (vencer), 7 vezes "tremendous" (tremendo).

Mais do que o uso excessivo da mesma linguagem rompante, nota-se a grandiloquência com que os verbetes são pronunciados. Quase sempre com rudeza, de forma agressiva, como se quisesse que os ouvintes engolissem as palavras.

Cabe lembrar que o grande escritor Philip Roth (1933-2018), logo que Trump tomou posse, fez o seu diagnóstico sobre o novo Presidente do maior país do Ocidente: "ignorante sobre governo, história, ciência, filosofia, arte, incapaz de expressar ou reconhecer sutileza ou nuance, destituído de toda decência e detentor de um vocabulário de 77 palavras que seria melhor chamar de paspalhês (jerkish) do que de inglês".

Nesse aspecto do bom uso do vernáculo, a comparação com Barak Obama é uma covardia. A fala correta, serena e lúcida de Obama é o modelo que o bom gosto recomenda seguir. Uma boa reflexão para os professores de português e de comunicações. Como explicar situações tão antagônicas?

(*) Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS 2019-2020.

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