Nhô Pedro

O apagão passou, como passam todos. Aquele desespero se foi, ficou na lembrança e nos dizeres do dia-a-dia parece até que nem houve apagão, parece que tudo foi um pesadelo que tivemos. Parece mentira que passei por todas aquelas coisas, que nem fui eu que passei por tudo isso. Perdi a lembrança do hospital e de todos os seus afazeres… as picadas que tomei já nem deixaram marcas. Só os remédios é que ficaram mais de vinte por dia… que deixam tudo com aquele cheiro esquisito e que a gente nem sabe de onde vem. O dia está azul e claro, cheio de sol. Há uma vontade de pescar no Náutico, mas, fica só na vontade. Os amigos que eram muitos, sumiram. Talvez nem saibam o que se passou comigo, poucos têm se interessado e perguntado por mim. A família se assustou no começo… como passou a crise, eles mesmos (com algumas exceções) estão presentes em telefonemas ou visitas, mas, eu é que tenho chegado até eles e não eles a mim. Os filhos são os que mais se preocupam principalmente os médicos que telefonam a toda hora mesmo sabendo que eu estou bem e me recuperando, mas, nunca mais vou ser o mesmo. Posso por Deus viver um bom tempo me cuidando, na maciota e deixando o tempo correr. Como se morte fosse verdadeira vem uma rememoração da vida que levamos principalmente das coisas boas de festas, bailes e do amor que supre quase toda a vida da gente. Foram tantos, tão diferentes, tão intensos, tão cheios de verdade e mentiras, tanta ilusão e tudo passou como passou o tal apagão.

Na solidão da vida a gente pensa quantas coisas boas e quantas coisas ruins passamos para chegar até aqui: 70 anos muito bem vividos e gozados nas tristezas ou nas alegrias que a vida propiciou durante seu percurso. Mais alegrias que tristezas, mais versos que prosas. Na construção do meu mundo tudo foi muito difícil e trabalhoso… se não fossem os amores que triste a vida seria. A melhor parte da minha vida foi na Casa Transitória da Marginal e de Perus, na maior junção de crianças anormais do Brasil na escola e no próprio consultório mulheres grávidas da favela e excepcionais. Hoje, nem isso posso fazer mais… é só lembrança.

A vontade de viajar como antes, também fica só na vontade. As viagens agora são de metros e cansativas, aborrecem e vão perdendo o sentido. Amava a água e nadar, andar pelo mato e conhecer gente diferente. Hoje, só nos sonhos e nas lembranças. Até o carro perdeu o sentido, já nem serve para aquilo que eu queria. Se Deus quiser, há de voltar um dia!

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