Ricardo Lazzari Mendes (*)
O volume do Sistema Cantareira está abaixo dos 20%, operando na faixa “especial”, considerada a mais crítica de acordo com a classificação da ANA (Agência Nacional de Águas). É o pior nível desde a crise hídrica de 2014 a 2016, quando o sistema entrou em colapso e foi necessário usar o “volume morto” – porção de água localizada abaixo do nível de captação.
Ou seja, o problema da crise hídrica já se anuncia há muito tempo e as mudanças climáticas têm afetado ainda mais este cenário, com a falta de chuva e o calor extremo como agravantes. Entre maio e novembro de 2025, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) constatou que houve queda de captação de água pelo Sistema Cantareira, provocada por chuvas irregulares e abaixo da média, além de seca prolongada em determinados períodos. Para piorar a situação, a previsão para os três primeiros meses de 2026 segue com chuvas abaixo da média.
Por outro lado, vivemos uma das maiores contradições, que é o desperdício. Ainda hoje, aproximadamente 40% da água tratada não chega às torneiras das moradias brasileiras, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Diariamente, desperdiçamos o equivalente a 7,8 mil piscinas olímpicas. Logo, é urgente atendermos a meta estabelecida pela Portaria nº 490 do Ministério do Desenvolvimento Regional, que prevê a redução de perdas para índices próximos a 25%, volume suficiente para abastecer cerca de 40,4 milhões de pessoas no período de um ano.
Portanto, é preciso compromisso contínuo para avançar na gestão hídrica e evitar o risco de desabastecimento. E já não podemos mais tratar este tema como uma ameaça futura: a escassez já está posta, afetando pessoas, serviços essenciais, a economia e a saúde pública.
Para enfrentar esse cenário com seriedade, é indispensável combinar medidas imediatas de contingência com planejamento de médio e longo prazo, sustentado por ações estruturantes: redução efetiva de perdas (água e energia), setorização e controle de pressões, modernização de redes, ampliação de reservação e interligações, proteção de mananciais, diversificação de fontes (reuso, aproveitamento de água de chuva onde aplicável, segurança operacional de sistemas), além de governança robusta, dados confiáveis e capacidade permanente de resposta a eventos extremos.
Neste ano de eleições para presidente, governadores, senadores e deputados, caberá a nós eleger quem de fato esteja comprometido com políticas públicas ambientais e de saneamento que saiam do discurso e se convertam em programas, metas, orçamento, cronograma e entregas. Crise hídrica não se resolve com improviso: resolve-se com engenharia, gestão, investimento e continuidade administrativa, porque a água exige visão de futuro.
A APECS e suas associadas valorizam e atuam diretamente nesses temas — defendendo o planejamento hídrico integrado, a qualificação técnica das soluções e a priorização de obras e programas estruturantes que reduzam vulnerabilidades e aumentem a resiliência dos sistemas. É assim que se constrói segurança hídrica: com responsabilidade técnica, transparência e compromisso com resultados.
Fica a dica: para enfrentar a seca, não desperdice água — e nem o seu voto.
(*) É presidente da APECS – Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente