JANAINA LAGE
A inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) registrou alta de 0,17% em agosto, segundo dados divulgados hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
No mês anterior, o índice que baliza as metas de inflação definidas pelo Banco Central havia apurado alta de 0,25%. Segundo o IBGE, a queda nos preços dos alimentos e a desaceleração de telefonia fixa e combustíveis foram os principais responsáveis pela taxa menor em agosto.
O resultado ficou levemente acima das previsões de analistas. Segundo o último Relatório de Mercado, organizado pelo BC junto a instituições financeiras, a expectativa era de que o índice apurasse alta de 0,15%.
“Apesar da taxa ter caído, tiveram várias pressões de alta, como a taxa de água e esgoto, a segunda maior contribuição individual, com 0,05 ponto percentual, os ônibus urbanos, planos de saúde e eletrodomésticos, entre outros”, afirmou a gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos.
Pressões
A maior contribuição individual no mês ficou com empregados domésticos, responsáveis por 0,06 ponto percentual da inflação, e passagens aéreas, que contribuíram com 0,03 ponto percentual. As passagens aéreas subiram 2,84% em julho e ficaram 4,80% mais caras em agosto. A alta é atribuída a custos, como o do querosene de aviação.
Os salários dos empregados domésticos tiveram alta de 1,86% em agosto, após taxa de 0,90% em julho. Segundo o IBGE, os resultados são reflexo do reajuste do salário mínimo em maio e a defasagem pode ser atribuída à metodologia de cálculo do índice. “Não temos uma coleta própria deste item, o resultado é apropriado da Pesquisa Mensal de Emprego por meio de média móvel trimestral, o que tende a diluir altas abruptas”, afirmou Santos.
Outros itens que registraram aumento de preços foram água e esgoto (de 0,21% para 2,39%), ônibus urbanos (de -0,22% para 0,36%) e intermunicipais (de 0,10% para 0,55%).
O telefone fixo contribuiu para conter a inflação em agosto depois de ter sido responsável por mais da metade da taxa de julho em razão do reajuste anual autorizado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Ele passou de 4,21% em julho para 1,15% em agosto. A alta deste mês representa o resíduo do reajuste de telefone fixo para móvel.
Os preços dos combustíveis também cresceram a um ritmo mais lento. O álcool registrou alta de 1,58%, ante um aumento de 2,05% em julho. O aumento dos preços do produto reflete a tentativa dos produtores de cana-de-açúcar de recompor margens nos locais onde o preço se encontrava mais defasado. Com isso, a gasolina, que tem cerca de 25% de álcool em sua composição, passou de 0,87% para 0,34%.
Dólar
O grupo Alimentação e Bebidas registrou queda pelo terceiro mês consecutivo, influenciados pela queda do dólar. Segundo Santos, o dólar permeia todos os produtos agrícolas porque 60% dos insumos são vinculados à moeda americana. Em julho, o grupo Alimentação e Bebidas havia apurado uma taxa negativa de 0,77% e em agosto registrou queda de 0,73%. Nos três últimos meses, o grupo acumula queda de 2,15%.
Os produtos que mais influenciaram o resultado dos alimentos em agosto foram batata inglesa (-15,99%), cebola (-11,13%), tomate (-8,37%), feijão preto (-6,07%), hortaliças (-6,04%), feijão carioca (-3,15%) e leite (-3,02%).
No ano, os produtos com preços cotados no mercado internacional apresentam queda acentuada. O óleo de soja acumula queda de 13,09% e a farinha de trigo, de 4,04%. Outros produtos de peso na cesta de compras do brasileiro também apresentam taxas negativas, como o arroz (-18,83%), afetado também pela concorrência com o produto importado da Argentina e macarrão (-1,79%).
O efeito do dólar também pode ser percebido nos produtos de limpeza, que tiveram queda de 0,38% em agosto.
Outros produtos também contribuíram para conter a taxa de agosto, como o gás de cozinha, que teve queda de 0,45% em razão da concorrência e aparelhos de Tv e som, com queda de 0,64% por conta das promoções e do preço do aço.
Inflação no ano
A perspectiva para o mês de setembro é de calmaria na inflação. Segundo a gerente não existem previsões de reajustes já agendados para este mês. No ano, o IPCA acumula alta de 3,59%, a menor taxa acumulada de janeiro a agosto desde 1998, quando o índice havia apurado alta de 1,65%.
O economista da Fecomércio-RJ João Carlos Gomes destaca que alimentos in natura, carnes e produtos de higiene e limpeza deverão continuar apresentando resultados favoráveis em setembro, influenciados pela taxa de câmbio.
“Os nossos resultados nos últimos doze meses mostram que existem evidências de redução das taxas, que estão ficando menores”, afirmou Santos. Nos últimos doze meses, o IPCA acumula alta de 6,02%.
O resultado confirma as expectativas de analistas de que o centro da meta de inflação ajustada, de 5,1%, tenha se tornado factível. “Não há pressão significativa na trajetória futura de inflação, o que fornece respaldo necessário para quedas dos juros, e nos leva a concluir que o IPCA caminha para fechar 2005 abaixo da meta ajustada pelo BC. Para 2006, tudo indica também que a meta central de 4,5% será alcançada”, avalia João Carlos Gomes, economista da Fecomércio-RJ.
Entre os reajustes previstos para este ano, ainda faltam os de energia elétrica no Rio de Janeiro e em Brasília, mas segundo Santos, os reajustes efetuados até agosto não têm gerado movimentações bruscas na taxa de inflação.
Desempenho regional
Entre as regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, a taxa mais alta ocorreu em Belém (1,83%) onde foram registrados aumentos de água e esgoto (26,54%), energia elétrica (8,21%) e ônibus urbano (7,83%). Belém foi o único local onde os alimentos não registraram queda de preços em agosto e ficaram praticamente estáveis (0,01%).
A menor taxa foi registrada em Porto Alegre, com deflação de 0,05%. Em São Paulo, a taxa ficou em 0,01% e no Rio de Janeiro, em 0,11%.
O IPCA mede a variação dos preços no varejo e se refere a famílias com rendimento entre um e 40 salários mínimos e abrange Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador, Curitiba, Brasília e Goiânia.