Debate foi convocado pela Comissão de Saúde e Serviços Públicos e contou com a presença de diversos representantes da Saúde de Araraquara
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 1 bilhão de pessoas vive com transtornos de saúde mental. Condições como ansiedade e depressão são altamente prevalentes em todos os países e comunidades, afetando pessoas de todas as idades e níveis de renda. Representam a segunda maior causa de incapacidade de longo prazo, contribuindo para a perda de anos de vida saudável. Também elevam os custos de saúde para as pessoas afetadas e suas famílias e geram perdas econômicas substanciais em escala global.
Considerando a relevância do tema, o Plenário da Câmara Municipal de Araraquara recebeu a Audiência Pública “Saúde mental e a prevenção ao suicídio em Araraquara”, convocada pela Comissão de Saúde e Serviços Públicos da Casa de Leis, composta pelos vereadores Marcão da Saúde (MDB) – presidente, Enfermeiro Delmiran (PL) e Paulo Landim (PT).
O debate teve o objetivo de ampliar o cuidado com a vida, reunindo diferentes setores da sociedade, entidades civis e do governo, visando à construção e ao fortalecimento das políticas públicas, diretrizes e das estratégias coletivas de prevenção e promoção à saúde no município.
O que o município oferece?
A secretária municipal da Saúde, Emanuelle Laurenti, explicou a presença da equipe da pasta para apresentar como a Saúde de Araraquara está sendo estruturada para um melhor acolhimento e um melhor atendimento. “Infelizmente, a saúde mental ainda é um tabu, percebemos que ainda há resistências na procura, nessa abordagem, mas a Secretaria da Saúde está aberta para melhor atender e melhor acolher toda a população.”
A subsecretária de Atenção Especializada, Celina Garrido, informou que alguns serviços de saúde mental são acessados via regulação, ou seja, o paciente é direcionado de maneira agendada para esses serviços, que são ambulatoriais. “Os outros serviços que nós temos na rede são os Caps [Centros de Atenção Psicossocial]. E esses serviços não precisam de agendamento para serem acessados. Então é feito o acolhimento imediato das pessoas que buscam por esse serviço por demanda espontânea. Casos de crise, urgências e emergências são tratados no âmbito das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que são uma via rápida para atender as situações de crises agudas”, detalhou, lembrando que todo o cuidado em saúde começa na Atenção Primária. “É possível buscar uma unidade do território, que é a unidade mais próxima para acolher e para começar a fazer a primeira assistência às questões do sofrimento psíquico.”
Já as unidades que são reguladas, ou seja, que são acessadas mediante agendamento, são o ambulatório infantojuvenil, que é o Espaço Crescer, e o ambulatório adulto, que é o Crasma. “Essas unidades são acessadas via agendamento por meio da Unidade Básica de Saúde [UBS]. E temos também o atendimento em saúde do trabalhador, que é o Cerest [Centro de Referência em Saúde do Trabalhador]. Hoje estamos em um marco onde as questões da NR1 [Norma Regulamentadora nº 1], que são os fatores de risco psicossocial no trabalho, começam a ser fiscalizadas. Então esse ano marca esse momento e já temos uma lei válida falando dessa adequação.”
A subsecretária colocou que o Caps II é dedicado ao atendimento aos transtornos mentais mais graves e persistentes. Já o Caps AD é indicado quando o paciente é usuário de álcool e drogas. “As duas unidades têm o acolhimento imediato à pessoa que busca ajuda e são unidades que, mesmo em um nível de complexidade média, já têm um nível de complexidade maior. Os nossos ambulatórios são um nível de prevenção especializada, já é um nível um pouquinho mais voltado à rotina clínica.”
“Muitas vezes pensamos que o centro do cuidado em saúde mental é do psicólogo e do psiquiatra, mas temos nesses equipamentos uma equipe multiprofissional muito preparada, com terapeutas ocupacionais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, além de psicólogos e psiquiatras”, disse.
Segundo a subsecretária, o nível ambulatorial atende a uma gravidade moderada. “Então é um espaço de prevenção especializada, passando aos níveis de Caps, tanto Caps AD quanto Caps II. No Caps II, temos a reabilitação psicossocial para pacientes com transtornos mentais graves e persistentes até uma situação que exige ação imediata. Muitas vezes as pessoas falam que precisamos ter um Caps 24 horas. Esse cuidado intensivo é importante. Porém, quando falamos de ação imediata, urgência e emergência, estamos falando de qualificar a atenção no atendimento de emergência, no pronto atendimento. E quando esse paciente vai para o pronto atendimento, ele pode ser internado ou retornar para os cuidados ambulatoriais.”
No entanto, não necessariamente todo paciente que vai para uma unidade de urgência e emergência vai passar por uma internação. “E da mesma forma, quando ele sai da internação, ele começa a voltar nos níveis de complexidade. Então, todo paciente que é porventura internado após uma crise aguda de saúde mental retorna com a alta direcionada para o Caps, e assim sucessivamente. No momento em que ele tem a alta no Caps também, em que os sintomas mais graves estão estabilizados, ele vai para o cuidado no nível ambulatorial e, a partir do momento que está estável, volta para o território dele para seguir com os cuidados no território de origem.”
Aumento nos casos de suicídio
Celina reforçou que o aumento do número de suicídios no município preocupa muito. “Esse início de ano nos colocou frente a um desafio muito grande, porque foram muitos casos de pessoas que tiraram a própria vida e a equipe então se debruçou sobre os dados epidemiológicos dos últimos anos, porque até então estávamos jogando tudo na conta da pandemia. E aí chega um momento em que precisamos fazer uma análise um pouquinho mais criteriosa e percebemos que essa análise extrapola os nossos muros da saúde também.”
No levantamento feito desde o ano de 2020, é possível ver uma progressão no crescimento do suicídio. “É importante falarmos, embora precisemos pensar que sempre precisamos de muito cuidado e muita cautela ao falar sobre isso”, alertou.
Em 2025, foram 31 óbitos – o maior índice dos últimos anos. Nesse ano, já foram registrados oito. A maioria das pessoas vitimadas é do sexo masculino (80% em 2025), no entanto, em 2024, houve um pico de vítimas do sexo feminino. O número de jovens também chama a atenção.
“É importante dizer que essas pessoas não acessaram os serviços públicos de saúde, elas não chegaram aos nossos serviços. Então precisamos refletir sobre esses espaços de diálogo de maneira que a gente atinja esse público-alvo vulnerável que vai além das vulnerabilidades socioeconômicas, que muitas vezes são os pacientes que chegam até nós”, colocou a subsecretária.
Alertou que os serviços de saúde mental não podem se restringir simplesmente a dar receita e renovar receitas. “É importante que esses pacientes estejam próximos dessa equipe multiprofissional, engajados com o seu cuidado; temos a necessidade de estar atentos ao comportamento e ao manejo psicossocial desse paciente. Precisamos conseguir identificar uma mudança comportamental.”
Segundo Celina, no Distrito do Assentamento Monte Alegre e de Bueno de Andrada, um ponto que precisa ser considerado é a barreira de acesso desses pacientes. “Na região norte, uma população jovem, uma vulnerabilidade social acentuada. Na Vila Xavier, uma recorrência maior de adultos. O número de ocorrências por território é proporcional e relacionado ao perfil da região. No Santa Angelina, por exemplo, temos ocorrências envolvendo pessoas idosas, adultos de classe média. Então esse risco não é uniforme. Quando falamos de prevenção do suicídio, falamos de um problema muito mais complexo. A alocação dos recursos deve respeitar a vulnerabilidade específica de cada território.”
Comitê
Para atuar nessa questão, o Município criou um comitê de enfrentamento à crise emocional e prevenção ao suicídio, que prevê o planejamento de ações e a elaboração de um plano municipal.
“Prevenção pensando também nas escolas públicas, Secretaria de Assistência Social, sociedade civil, universidades locais e Secretaria de Comunicação. Temos observado a forma com que a imprensa também tem noticiado essas ocorrências. Então, hoje temos um manual que fala da forma como isso deve ser abordado pela imprensa para que isso não desenvolva gatilhos também”, destacou.
Como noticiar
Abordando a questão de como o tema deve ser tratado, principalmente pela imprensa, a secretária municipal de Comunicação, Paula Cardoso, disse que tem visto um abuso muito grande por parte da imprensa com relação à divulgação de suicídios na cidade. “Não é só na cidade. Nas redes sociais percebemos que há uma irresponsabilidade muito grande, tanto por parte jornalistas quanto de influenciadores. Na minha época de formação, tínhamos um curso chamado Ética, que, infelizmente, hoje é algo que falta muito. Se o jornalista não tiver ética, ele não vai conseguir ser um bom comunicador. Antes de divulgar, temos que conferir.”
Para ela, a audiência é importante também para entender como os casos devem ser noticiados. “Precisamos pensar muito bem em como vamos divulgar isso. Sou totalmente contra noticiar caso de suicídios. Isso causa efeito de contágio. Como é que vamos comunicar isso? Isso é sério. A Constituição Federal garante, sim, a liberdade de expressão e de imprensa, mas veda também abusos e protege direitos como dignidade, intimidade e vida privada. E muitas vezes isso não ocorre na divulgação de um suicídio. Isso infelizmente não ocorre. O Código Penal tipifica como crime induzir, instigar ou auxiliar alguém ao suicídio. A divulgação irresponsável pode, em determinados contextos, contribuir indiretamente para esse risco. Temos uma Constituição Federal, um Código Penal, mas não pensamos duas vezes para noticiar porque queremos clique, curtida, achamos que isso que é importante na vida, e na verdade não é. O mais importante é a vida, que é o que a gente está tratando aqui.”
Mais divulgação
Para Kátia Comito, psiquiatra do município, a rede de atendimento precisa ser divulgada. “Falta essa divulgação, falta capacitar profissionais, tanto da UPA quanto da rede básica, orientar a rede para identificar os quadros, principalmente do funcionamento da Raps [Rede de Atenção Psicossocial]. Tem muito profissional novo na rede que não conhece. Como foi falado, toda a entrada da saúde é a rede básica. Então, se você buscar a rede básica, essa rede básica está capacitada, essa rede básica está orientada, ela vai fazer todos os encaminhamentos necessários e essa pessoa vai ser acolhida rapidamente.”
“A imprensa deveria informar sobre pessoas que sofreram, que passaram por uma depressão e conseguiram se tratar e se recuperar. O CVV [Centro de Valorização da Vida] há séculos faz esse trabalho. É um trabalho extremamente bom. Já tivemos muitas pessoas no Caps II que falaram que no momento de desespero ligaram para o CVV e foram acolhidas. Porque com 10 minutos, 15 minutos que falem com alguém, eles mudam de ideia muitas vezes”, completou.
Voluntário e responsável pela comunicação do CVV, Walcinyr Bragato reforçou que a situação acontece em todas as idades, mas especificamente o aumento entre os jovens e pessoas de mais idade tem sido além da média geral das outras faixas etárias.
“Estamos há 64 anos funcionando no Brasil. É uma experiência diária, uma experiência de mudanças que aconteceram ao longo desses 64 anos. E sempre buscando oferecer o apoio naquele momento que a pessoa nos procura. Um apoio que é um apoio emocional, porém feito por pessoas leigas profissionalmente. São voluntários, são pessoas que utilizam da boa vontade, da amizade. Naturalmente, durante todas essas décadas, foi se sentindo a necessidade de preparar os voluntários, de dar uma condição mais adequada para os voluntários, principalmente para estarem oferecendo uma escuta ativa. Saber ouvir é uma coisa que a gente precisa estar sempre desenvolvendo, melhorando em todos os âmbitos.”
Profissionais e usuários da rede de saúde do município também deram seus depoimentos, avaliados como importantes pela secretária de Saúde. “É necessário que trabalhemos em rede, e isso faz a diferença. Estamos lidando com pessoas, estamos lidando com vidas, e isso é imensurável. Precisamos estar atentos aos sinais, precisamos aumentar o nosso apoio e precisamos desmistificar os tabus em relação aos atendimentos, porque isso é primordial. Nos unirmos, como hoje, com críticas construtivas, com apoios de ação, ideias, tudo é muito bem-vindo.”
Ações
Marcão da Saúde destacou uma ação que já vai ser realizada. “Na conta de água, a partir do mês que vem, será divulgado o número 188 do CVV. Vai estar em todas as conta de água, e vamos fazer mais”, adiantou. “Também estamos estudando a criação do Caps 24 horas. Enquanto não tivermos o Caps 24 horas, não vamos sossegar”, acrescentou.
Também participaram da discussão o vereador Alcindo Sabino (PT); a subsecretária da Assistência Especializada da Saúde, Karina Maia; a coordenadora da Fungota, Ticiana Tortorelli; a gestora do Caps II, Mayra Gil; a gestora do Samu, Alessandra Somenzari; a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Marlene Lopes; e Ademir Sala, representando o Cremesp.
Onde buscar ajuda?
Se você está com dificuldades em lidar com situações que afetam sua saúde mental ou conhece alguém que esteja em situação de risco de suicídio, confira alguns canais para ajuda e/ou informação sobre o tema:
Centro de Valorização da Vida (CVV): 188
Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu): 192
Caps II: Rua Danilo Alvarenga Reis, nº 420, Jardim América; telefone: 3324-7266
Prevenção ao Suicídio – Ministério da Saúde: www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao
Como rever
A audiência foi transmitida ao vivo pela TV Câmara no canal 17 da Claro, além do Facebook e do YouTube – onde pode ser revista.
(Setor de Imprensa – Câmara Municipal de Araraquara)