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Dia Mundial do Sono: Cérebro permanece ativo durante o sono e realiza processos essenciais para a saúde, explica neurocirurgião da Unicamp

Atividades cerebrais que ocorrem durante o descanso influenciam memória, aprendizado, equilíbrio emocional e podem reduzir o risco de doenças

Dormir bem é uma necessidade biológica fundamental para o funcionamento do cérebro e para a saúde ao longo da vida. Ainda assim, cerca de 40% da população mundial apresenta algum distúrbio do sono, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O sono é um período ativo de manutenção cerebral. Durante o descanso, o cérebro realiza uma série de processos químicos e fisiológicos que influenciam a memória, o aprendizado, o equilíbrio emocional e o risco de doenças neurológicas. “Dormir não é simplesmente desligar o cérebro. Durante o sono, ele entra em um dos períodos mais ativos de reorganização e manutenção do corpo humano, um processo fundamental para o equilíbrio do organismo”, explica o Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Unicamp.

Por outro lado, distúrbios crônicos do sono, como insônia e apneia, estão associados a aumento do risco de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes. Alterações persistentes no padrão de sono também podem influenciar a saúde mental ao longo da vida.

O que acontece no cérebro durante o sono

O ciclo sono-vigília é regulado por uma delicada interação de mecanismos químicos e neurais no cérebro, além de ajustes em diversos sistemas fisiológicos. Esses mecanismos determinam quando sentimos sono, quanto tempo dormimos e como o organismo se recupera durante a noite.

Uma molécula exerce função determinante nesse processo: a adenosina, que se acumula progressivamente no sistema nervoso ao longo do dia, aumentando a sensação de cansaço conforme o tempo acordado se prolonga. Durante o repouso, seus níveis diminuem, permitindo que o organismo recupere o estado de alerta para o dia seguinte.

Durante a noite, o cérebro também passa por diferentes estágios de sono, cada um associado a padrões específicos de atividade neural. Nos períodos de sono profundo, conhecidos como sono profundo (slow-wave sleep), ocorre uma intensa reorganização das conexões neurais. Durante o sono REM, fase associada aos sonhos mais vívidos, estruturas cerebrais ligadas à memória, às emoções e ao processamento de experiências apresentam elevada atividade. A alternância adequada entre essas fases favorece a consolidação das memórias e a aprendizagem, permitindo que as informações adquiridas ao longo do dia sejam reorganizadas e armazenadas de forma mais estável aos circuitos cerebrais.

Impacto do sono ao longo da vida e na prevenção de doenças

A necessidade de sono muda ao longo da vida e está diretamente ligada ao funcionamento do cérebro e do organismo. Enquanto crianças e adolescentes precisam dormir mais horas porque a estrutura cerebral está em intensa fase de desenvolvimento e aprendizagem, em idosos, o padrão de sono tende a se tornar mais fragmentado devido a mudanças no ritmo circadiano e na arquitetura do sono.

Para o médico, compreender o papel do sono na saúde cerebral é essencial para prevenir problemas futuros. “A qualidade do sono influencia diretamente funções como memória, concentração e equilíbrio emocional. Quando o sono é negligenciado por longos períodos, o impacto pode ser percebido tanto no desempenho cognitivo quanto na saúde geral”, afirma o neurocirurgião.

A qualidade do sono também é relevante para a saúde e longevidade. Tanto dormir pouco quanto dormir em excesso pode estar associado a maior mortalidade. Estudos populacionais indicam que pessoas que dormem menos de cinco horas ou mais de nove horas por noite apresentam risco significativamente maior de morte quando comparadas àquelas que dormem cerca de sete a oito horas¹, duração recomendada pela OMS. 

Embora os mecanismos ainda estejam sendo investigados, a qualidade do sono parece influenciar processos inflamatórios, metabólicos e hormonais do organismo, fatores que, ao longo do tempo, favorecem o desenvolvimento de diversas doenças crônicas. 

Além disso, a privação crônica de sono pode afetar a saúde mental. Noites mal dormidas estão relacionadas a maior risco de depressão, ansiedade e alterações de humor. Se frequente, a má qualidade do sono pode alterar o equilíbrio de neurotransmissores importantes para o bem-estar psicológico, como serotonina, dopamina e noradrenalina, além de aumentar os níveis de cortisol, o hormônio associado ao estresse.

Mitos e verdades sobre o sono

Com o dia a dia acelerado, o uso constante de telas e a sobrecarga de atividades, priorizar o sono tornou-se um desafio. Na ânsia de uma noite bem dormida, a população pode cair em armadilhas que nem sempre têm respaldo científico. O Dr. Marcelo Valadares alerta para o que comprovadamente funciona para um descanso reparador e elenca alguns mitos e verdades sobre o sono:

1) Dormir pouco durante a semana pode ser compensado no fim de semana – MITO.
Dormir algumas horas a mais no fim de semana pode aliviar temporariamente o cansaço, mas apenas duas noites de descanso prolongado não eliminam completamente os efeitos metabólicos e cognitivos da privação crônica de sono.

2) Cochilos durante o dia podem ser benéficos, mas devem ser curtos – VERDADE.

Pequenos cochilos, especialmente entre 10 e 30 minutos, podem melhorar a atenção e o desempenho cognitivo. Cochilos longos ou muito tardios, porém, podem dificultar o sono noturno.

3) Manter uma rotina regular de sono ajuda a dormir melhor – VERDADE.

Dormir e acordar aproximadamente no mesmo horário todos os dias ajuda a sincronizar o ritmo circadiano, o relógio biológico que regula o ciclo sono-vigília. Alguns hábitos também contribuem para a higiene do sono e favorecem um descanso mais profundo e restaurador, como evitar o uso de telas e iluminação intensa à noite, manter o quarto escuro e silencioso e reduzir o consumo de estimulantes, como cafeína, nas horas que antecedem o sono.

4) Roncar é normal e não representa problema de saúde – MITO.

Embora o ronco seja relativamente comum, ele pode ser um sinal de apneia obstrutiva do sono, um distúrbio caracterizado por pausas na respiração durante o sono. A apneia está associada a maior risco de hipertensão, doenças cardiovasculares e sonolência excessiva durante o dia, e deve ser investigada por avaliação médica.

O especialista reforça que é importante estar atento a sinais que podem indicar problemas com o descanso noturno. “Quando o indivíduo apresenta dificuldade persistente para dormir, acorda cansado com frequência, ronca intensamente ou tem pausas respiratórias durante o sono, é fundamental procurar avaliação médica”, ressalta. Esses sintomas podem estar associados a distúrbios do sono que, quando não tratados adequadamente, podem impactar a saúde, o desempenho cognitivo e a qualidade de vida.

Referências:

¹JIN, Q.; YANG, N.; DENG, J.; ZHANG, Y.; XU, X.; YANG, J.; YU, Y. Association of sleep duration with all-cause and cardiovascular mortality: a prospective cohort study. Frontiers in Public Health, Lausanne, v. 10, art. 880276, 2022. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2022.880276/full. Acesso em: 9 mar. 2026.

Sobre o Dr. Marcelo Valadares:

Foto: Divulgação

Dr. Marcelo Valadares é médico neurocirurgião e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A Neurocirurgia Funcional é a sua principal área de atuação. Seu enfoque de trabalho é voltado às cirurgias de neuromodulação cerebral em distúrbios do movimento, cirurgias menos invasivas de coluna (cirurgia endoscópica da coluna), além de procedimentos que envolvem dor na coluna, dor neurológica cerebral e outros tipos de dor. 

O especialista também é fundador e diretor do Grupo de Tratamento de Dor de Campinas, que possui uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos.

No setor público, recriou a divisão de Neurocirurgia Funcional da Unicamp, dando início à esperada cirurgia DBS (Deep Brain Stimulation – Estimulação Cerebral Profunda) naquela instituição. Estabeleceu linhas de pesquisa e abriu o Ambulatório de Atenção à Dor afiliado à Neurologia.

Mais informações:

www.marcelovaladares.com.br

Instagram: @drmarcelovaladares

Foto Ilustrativa Freepik

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