Marcelo Barbieri (*)
Era a década de 70 e eu participava de forma profunda da militância estudantil com a inerente vontade de adolescente de mudar a situação política do Brasil. Cursava Economia na USP e Administração na FGV, em São Paulo. Estava ativamente envolvido com o centro acadêmico da GV e acabei sendo eleito diretor da UNE (União Nacional dos Estudantes) e, posteriormente, vice-presidente. Protestávamos contra a morte do jornalista Vladimir Herzog em uma época em que os assassinatos políticos eram práticas recorrentes e não existia liberdade de imprensa.
Foi nesse contexto que, inevitavelmente, acabei me engajando na política. Militava em partidos clandestinos, como Ação Popular e MR8. Acabei filiando-me ao MDB, que era a grande força política ascendente contra a ditadura. O regime militar autorizou, então, a criação de novos partidos em uma tentativa de enfraquecer o MDB. Cheguei a participar de uma reunião de fundação do PT em um restaurante em São Bernardo, mas acreditava que o melhor caminho para acabar com a ditadura era o fortalecimento do MDB. E foi justamente o PMDB, antigo MDB, que acabou sendo o grande canal de restabelecimento da democracia quando elegeu Tancredo Neves e com Ulysses Guimarães foi promulgada a nova constituinte.
Hoje vivemos os resultados dessas conquistas, como a ampla liberdade de manifestação. Mas o grande desafio é promover o desenvolvimento econômico com distribuição de renda. Vejo a democracia sofrer com a concentração de recursos no Governo Federal. O que garante a democracia é o bem-estar da população, e o sistema de repasse de verbas da União aos municípios não supre direitos básicos das famílias brasileiras, como saúde, educação, segurança. O caminho da democracia contra o golpismo é fortalecer os municípios e dar condições para que possam oferecer serviços de qualidade à nossa população.
(*) É Prefeito de Araraquara