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Compostura moral, ato em solidão

Léo Rosa de Andrade (*)

Há um conto de Leon Tolstói, russo, século XIX. É dele, se bem me lembro, Depois do Baile: na festa, o moço percebeu a moça, que era linda, cheia de graça e demonstrava sensibilidade e inteligência. Notou que ela se dava carinhosamente com o pai. Entre eles havia alegria, cumplicidade e respeito.

O rapaz ficou encantado quando os viu dançando e maravilhou-se com relação tão afetuosa. Sentiu mesmo certa invídia, ao menos, muito desejo de ter algo assim que fosse seu. Admirou a moça a distância e foi tomado de envolvente paixão. Passou-se a festa e o moço não foi dormir.

Não queria dormir. Guardava o antes, sonhava o presente, desejava o depois. Preferiu andar pela noite, sonhando acordado o sonho do que seria o resto da sua vida, imaginando vivê-la apaixonado pela bela mulher que a boa sorte lhe apresentara. Sentia-se arrebatado. Existia quem merecesse sua ternura, a dedicação de seus planos, do seu vir-a-ser.

O amanhecer, que o moço queria que nunca se anunciasse, surpreendeu e causou espanto desgostoso ao sonhador. As coisas do dia se intrometeram nos seus devaneios da forma mais repugnante que poderia acontecer: escravizados eram conduzidos aos açoites, com brutalidade e escárnio.

Quem manejava o látego externava um doentio prazer. Barbaridade! Ato vil! A dor revoltante era cometida pelo pai da moça do baile. O moço foi-se tomando de desprezo, sentiu náusea ao lembrar a moça com quem sonhara. Desprezou-se, desprezou-a, amaldiçoou o próprio amor.

Um conto meu, a narrativa de algo que vivenciei. Mesa de restaurante. Amigos, amigos dos amigos; gente bem-falante, boas conversas. Noite agradável, dessas em que tudo oferece prazer. Um professor universitário, autoridade local, põe-se a fazer graça nada comum ao gosto dos comensais.

O mundo não tem que ser perfeitamente do jeito que a gente quer. Algo desagradável, mas dava para aturar. Aí, piadas racistas. Desconforto. Olhares chocados, sorrisos mortos nos lábios. Houve quem enrubesceu. Uma risada estridente, pois nunca falta a lisonja da personalidade barata.

Havia que sair dali. Em silêncio? Com protesto? Protestou. Lançou seu asco, constrangeu a todos, negou a cada um o pretexto de não ter entendido aquele tosco. Advertiu-os: congraçavam com o preconceito. Saiu só, sentindo a própria dignidade, altivo e seguro de estar construindo civilização.

Depositada sobre a mesa o seu gesto, sua atitude perturbaria a noite dos que ficaram. Caminhando, considerou consigo: estamos estafados com a vulgaridade, com as vociferações baratas; pedimos por tolerância, por ética, por civilização. O mundo necessita de alguma contabilidade moral.

Constam registros, nos livros dos sábios que anotam as grandes queixas das pessoas dignas, de que há tempos solicitam-se valores civilizacionais. Mas consta, também, que de comum o queixume é tão só formalidade. A conduta propriamente dita resta descambando em coisas lamentáveis.

A moça do baile, sensível que era, inteligente como demonstrava ser, como poderia dar-se bem com o pai que tinha? Ou traía a si, ou não era melhor do que o condutor dos cativos. A gente educada que ficou na mesa, que disse nada, o que será que essa gente diz em casa? Como educa suas crianças? Como vota? Com que tipo de pessoa convive? Como essa gente se vê?

Certas convergências de posturas excludentes diante das delicadezas ou das rudezas da vida pedem posição moral. Solicitam um ato que pode ser unicamente pessoal, porém, de recusa às ocorrências. Há outro conto, este de Charles Baudelaire: Os Olhos dos Pobres. Um caso de amor; um caso de desprezo por quem se ama:

O sujeito e sua amada no agradável restaurante. A família pobre, lá fora, no frio; os olhares arregalados, admirados, solicitantes. Acabrunhou-se: culpa por sua fartura desnecessária. Ela, contudo, imperturbada, solicita-lhe providenciar o afastamento “dessa gente”. Ele lhe explica o ódio que lhe toma, e conclui: “É tão difícil o entendimento, meu caro anjo, e tão incomunicável é o pensamento mesmo entre as pessoas que se amam”.

Estou convencido de que não há solução individual para o mundo. O voluntarismo personalista não vai arrumar as coisas. O processo civilizatório é geral, abrange grandes questões sociais, recondução das relações econômicas, outros modos de explorar o planeta. A opção civilizatória é uma opção política coletiva. Nem somos um coletivo, mas isso não justifica tudo. Ademais, certas coisas são só nossas, deliberação moral personalíssima.

Não se trata de pôr-se para a torcida que dicotomiza nossa opinião pública. Maniqueísmo: “doutrina que se funda em princípios opostos, bem e mal” (Aurélio); “qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis” (Houaiss). Eis o momento brasileiro. Afora esse reducionismo, contudo, há, sim, comportamentos intrinsecamente errados, individualmente e socialmente deletérios; insultos explícitos à vida em comum.

Disposição ao gesto indignado: ninguém salvará a pátria, cada qual, contudo, poderia erguer a voz até a esquina, pôr a mão nas coisas ao redor. Espantar-se: de vez em quando, não dançar tão conforme a música da sua turma; vez que outra, recusar o prato feito da sua “bolha” social. Compostura, embora solitária, diante da existência. Não tem coisa que faça bem maior.

(*) É Doutor em Direito pela UFSC, Psicanalista e Jornalista.

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