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Começam as negociações Brasil-EUA

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves (*)

Brasil e Estados Unidos retomaram nesta segunda-feira (31/08) as negociações comerciais depois de um período marcado por divergências e troca de acusações. A abertura de um canal direto entre as equipes dos dois governos representa uma oportunidade para substituir o confronto por uma negociação objetiva, capaz de preservar interesses econômicos e estratégicos das duas nações.

O tarifaço imposto por Washington reduz a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano e atinge importantes setores das exportações. Na outra ponta, tarifas elevadas também podem aumentar custos para empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos. Por isso, a questão não deve ser tratada como uma disputa em que um país precisa derrotar o outro, mas como um problema econômico que exige equilíbrio e pragmatismo.

O Brasil pretende ampliar a lista de produtos livres das tarifas adicionais e discutir outras barreiras comerciais. A relação econômica entre os dois países é extensa. O Brasil exporta petróleo, aço, aeronaves, café, celulose e diversos outros produtos, enquanto importa máquinas, motores, combustíveis, gás, produtos químicos, medicamentos e tecnologia. Uma guerra comercial prolongada poderia provocar prejuízos dos dois lados.

As divergências, porém, não se restringem ao comércio. Existem diferenças políticas, diplomáticas e de segurança, principalmente em relação ao combate ao narcotráfico e às organizações criminosas que atuam de maneira transnacional. Esse assunto exige firmeza, mas também prudência, respeito à soberania brasileira e observância do direito internacional.

Diante de situações tão delicadas, em que o governo americano procura defender seus interesses econômicos e demonstra preocupação com o crime organizado e com o tráfico de drogas que atingem seu território, cabe às autoridades brasileiras dos três Poderes agir com responsabilidade. É necessário ouvir a sociedade, produtores, importadores e exportadores e construir, pela diplomacia, uma posição que respeite os legítimos interesses americanos sem prejudicar nossos interesses econômicos e de segurança interna. O objetivo deve ser chegar a um acordo inteligente, sem emoção, interesses pessoais ou cálculos eleitorais.

O Brasil também precisa reconhecer a dimensão alcançada pelas facções criminosas nas últimas décadas. O problema deixou de ser exclusivamente policial e ganhou características econômicas e internacionais. A cooperação com outros países pode ser necessária, mas isso jamais deve significar abrir mão da soberania nacional. Qualquer iniciativa conjunta precisa decorrer de acordos formais, coordenação entre governos e respeito às instituições brasileiras.

A mesma racionalidade deve prevalecer no comércio. O Brasil não pode aceitar condições que prejudiquem sua indústria, o agronegócio, os empregos ou suas exportações apenas para encerrar uma crise política. Por outro lado, também não interessa transformar uma divergência tarifária em confronto permanente com uma das maiores economias do mundo.

Donald Trump e Lula possuem profundas diferenças políticas, mas representam nações cuja relação é muito maior e mais duradoura do que seus governos. Brasil e Estados Unidos mantêm vínculos comerciais, diplomáticos e históricos que devem ser preservados.

Se houver equilíbrio, respeito e disposição verdadeira para negociar, será possível reduzir as tensões, proteger interesses econômicos e fortalecer a cooperação contra o crime organizado. O melhor caminho não está na submissão nem no confronto. Está na diplomacia, na defesa firme da soberania e dos interesses nacionais e na construção de soluções que tragam benefícios recíprocos aos dois povos.

(*) É dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

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