A psicóloga Rosely Sayão, na edição de terça-feira(25)da Folha de S.Paulo, faz crônica bem elaborada que deve servir de pauta nobre para pai, mãe e filhos sobre tema dos mais atualizados: Baleia Azul, sem preconceito e medo da palavra suicídio a fim de integrar papo rotineiro da família. Eis o texto que pode balizar a conversa de pessoas que se amam e desejam caminhar com segurança e sem grilos.
“As notícias sobre o jogo da “Baleia Azul” provocaram diferentes reações na sociedade. Primeiramente, elas colocaram na ordem do dia as reflexões e os debates a respeito do suicídio. Sabemos que o índice de suicídio vem crescendo no mundo todo, em todas as faixas etárias, em especial entre os jovens e adolescentes. O Brasil segue essa tendência global, e o tema costuma ser tratado como tabu, ou melhor, não costuma ser tratado.
A polêmica em torno da “Baleia Azul” provocou pelo menos uma consequência produtiva: falar sobre o suicídio, um assunto tão inquietante e espinhoso é bem melhor do que silenciar.
São diversas as razões que nos levam a evitar conversas a respeito desse tema, mas a principal delas é o receio de colocar o suicídio em evidência para os jovens e, sem querer, apresentar essa possibilidade como uma saída para quem vive um problema ou vários. Entretanto, o silêncio é ainda pior: é como se negássemos a existência dessa possibilidade, em vez de enfrentá-la. Pois bem: logo após o primeiro impacto da “Baleia Azul”, que afetou famílias com filhos adolescentes, mudamos o jogo. Na internet, bem como nas rodas de amigos e conhecidos presenciais e virtuais , piadas e caricaturas do jogo começaram a mostrar outra face de nossas posições em relação aos mais jovens.
Primeiramente, um chinelo de dedo com a tira azul substituiu a baleia e se propagou pela internet sugerindo que os adolescentes que se aproximam de jogos perigosos precisam mesmo é de castigo para aprender a viver.
Logo após esse “meme”, surgiu um outro que, no lugar da baleia, mostra uma carteira de trabalho com o texto “É dessa baleia azul que os adolescentes precisam”. Curioso como a ideia de trabalho se aproxima à de castigo, não é?
Esses exemplos mostram nosso despreparo para lidar com adolescentes. Nós, que passamos a adolescência em um mundo com características diferentes do atual, ainda achamos que eles devem ser tratados como fomos ou como imaginamos que fomos.
A maioria dos adultos não se lembra das angústias e inquietações que viveu nessa fase da vida e, por isso, trata com um certo desdém o sofrimento dos jovens.
Vamos relembrar: os adolescentes, no presente, sofrem uma pressão desmedida para que tenham sucesso escolar e pessoal, além de boa aparência, segundo determinados modelos; para que sejam populares; para que participem de determinados grupos sociais, e para que sejam felizes, muito felizes, porque damos “tudo o que não tivemos” a eles! E isso tudo é somado às inquietações de quem vive um momento de crise. Crescer dói, é preciso que lembremos sempre disso!
O que nossos jovens e adolescentes querem e precisam e que pouco temos ofertado é a nossa presença verdadeiramente interessada na vida deles.
Precisamos desenvolver empatia e compaixão pelos adolescentes: tentar trazer para nós o lugar que eles ocupam nesta época da vida para nos aproximarmos deles com intimidade, porém, sem invadir sua privacidade; para dialogar sem moralismo; ouvir com atenção e interesse o que dizem abertamente e aprender a ler o que dizem nas entrelinhas.
“Conte comigo sempre”. É essa a mensagem que cada adolescente precisa ouvir dos adultos, principalmente dos pais e professores.