Aventura no Elevador

Nestes dias, a TV está focalizando as lembranças dos dois famosos prédios gêmeos de Nova York, que foram derrubados há um ano exato. Subi neles em 1992 e dessa aventura tenho guardado comigo o bilhete que comprei para subir no terraço, do qual se podia avistar os Estados vizinhos. Os elevadores dos dois edifícios ou torres eram os mais rápidos que já tomei. Durante a subida, fiquei pensando naqueles elevadores antigos, extremamente lentos e apertados, como ainda há muitos por aqui e pensei também em tantas aventuras que já aconteceram com muitas pessoas dentro dos pequenos e lentos elevadores.

Lá no centro da cidade, em São José do Rio Preto, em plena Rua Bernardino de Campos, havia um popularíssimo e enorme cinema, com 1.800 lugares, chamado Cine Rio Preto. Eram 6 andares na parte da frente, alugados para escritórios, e o longo salão de espetáculos atingia a rua paralela, chamada General Glicério.

Nesse prédio vivi, no mesmo ano de 1945, três inesquecíveis aventuras: uma aventura de glória, uma sexual e uma de horror. Esta última foi no elevador do prédio.

A aventura de glória aconteceu no dia 3 de dezembro de 1945, que foi um sábado, às 10 horas da manhã, em que lá ocorreu minha formatura do Curso Primário. Foi um ato soleníssimo, com a presença do Prefeito, do Juiz, do Inspetor Federal, de vários diretores de escolas e um montão de professoras, inclusive a minha, é claro, a queridíssima D. Francisca Ferraz Negrão. Foi meu inesquecível dia de glória porque fui o orador da turma, cujo discurso, evidentemente, tenho guardado até hoje, recentemente plastificado.

A aventura sexual foi naquele cinema, num dia em que fui sozinho numa sessão diurna, antigamente chamada “matinée”. Escutei um psiu. Era a Natalina, do 4° ano feminino, me chamando para sentar-me ao lado dela. A Natalina tinha 12 anos e eu 10, sendo que ela já vinha jogando olhares melosos em mim. Mandando a amiga se mover, deu-me uma vaga e eu me sentei. Sentei-me e a luz já se apagou. Meu coração pulsava forte e acelerado, só que eu não sabia o que fazer. Era um filme de “cow boy”, em cujos tiroteios mais ferrenhos ela me apertava o braço. Eu fiquei trêmulo o tempo todo, sem conseguir prestar a atenção no filme. Já estava quase no fim, quando criei coragem de passar a mão sobre os ombros dela, imitando namorados. Levei mais alguns minutos para adquirir mais coragem e pegar no braço dela do outro lado. Mal toquei na pele dela, ela puxou minha mão geladíssima e apertou-a bem em cima do peitinho dela, do tamanho de um coquinho… Senti uma sensação esquisita no corpo todo, como quem estivesse prá desmaiar, que acredito ter sido meu primeiro projeto de orgasmo… Sorte ou azar, o filme acabou nessa hora. As luzes foram acendendo em série, ela me deu um beijo no lado direito do rosto e eu saí correndo prá tomar ar na praça Dom José Marcondes. De lá, tomei o rumo de casa na distante Vila Ercília, no mundo da lua, pensando nela…

A aventura de horror aconteceu no mês de agosto, perto de meu aniversário. Minha irmã Leila foi aprender a escrever a máquina na Escola de Dactilografia Triunfo, que ficava no 3° andar do prédio do Cine Rio Preto. Fui incumbido de fazer companhia a ela todas as noites. O elevador era pequeno e antigo, cabendo apenas o ascensorista e mais quatro passageiros. A aula começava às l9 horas. Minha irmã subia e eu ficava zanzando à espera dela.

No mesmo andar, trabalhava uma bela moça de 15 ou 16 anos, cujo estranho nome eu logo descobri: Pura. Eu logo me encantei com os olhos dela e marquei que o horário dela sair era às 19:30 horas. O elevador corria folgado dentro do poço dele, formando um vão de uns sete centímetros. Na hora dela sair, eu descia junto, mas preferia ficar no segundo andar, onde a porta era gradeada e dava para eu vê-la por baixo quando ela entrava. Era um lance rápido, mas o suficiente para deliciar minha imaginação, sonhando com a vontade de já ter pelo menos 18 anos…

Depois que a Pura ia embora e eu a perdia de vista, começava minha aventura de subir e descer no elevador, cada vez que houvesse vaga. O ascensorista, chamado Valdeci era muito amigável e me ensinou a comandar o elevador, que era acionado por uma alavanca de metal amarelado. Prá funcionar, a gente puxava a alavanca e a empurrava prá cima, podendo regular a velocidade. Tinha que ficar segurando e na hora de parar, era necessário mudar a posição da alavanca em sentido contrário, de modo brusco, retornando-a rapidamente ao ponto neutro. Pegando prática, dava para parar o elevador no piso certinho, sem formar degrau.

Certa noite, enquanto esperava a Leila, o Valdeci sentiu uma súbita dor-de-barriga e foi ao banheiro no térreo. Fiquei por ali. Chegaram dois jovens e eu tomei a iniciativa de levá-los até ao 4° andar, fazendo a maior pose… Na volta, sozinho, achando que já era um craque, puxei a alavanca num golpe só e a empurrei prá baixo até ao fim. A danada enroscou e o elevador desceu numa verdadeira queda livre até estatelar-se nas quatro molas do poço. No primeiro pulo que deu, minha cabeça alcançou o teto. Eu fiquei mudo! O elevador deu mais alguns pulos e parou formando um degrau de uns 80 centímetros. Eu fiquei agachado, encolhidinho. Um senhor que estava esperando abriu as duas portas de correr e deu a mão prá mim. Sentindo-me livre, nem olhei prá cara do homem. Saí correndo e fui esperar minha irmã lá no meio da praça, com a boca seca, apavorado… Nas noites seguintes, passei a esperar pela Leila num banco do outro lado da praça, de onde poderia vê-la sair. Não contei nada prá ela, de medo dela contar prá Mamãe. Nunca mais vi o Valdeci, nem os lindos olhos e muito menos as pernas da jovem Pura…

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