José Renato Nalini (*)
Desde a chegada dos portugueses, a Amazônia é um mistério insondável. Quanto já se escreveu sobre ela e ainda hoje está na ordem do dia. Agora, por receber, pela primeira vez, uma reunião da ONU, a COP30, escolhida exatamente para fazer o mundo prestar atenção a essa região onde consta viver mais de trinta milhões de pessoas, nem todas inteiramente incluídas na civilização e que é o território em que a sofisticada criminalidade sem pátria parece fazer o que bem entende.
Discursos não faltam, projetos são múltiplos. Ela serve de assunto para a Academia, para a Política, para a Economia. Só não se faz por ela o que ela espera e merece. A “soberania” nacional se excita e fica indignada quando a comunidade internacional quer nos lembrar de sua importância.
Os intelectuais sempre tiveram uma predileção por essa imensa floresta, hoje nem tão imensa, porque tem sido vítima de uma feroz devastação. Impressiona que pessoas eruditas sustentem a necessidade de se acabar com ela, em nome do “progresso”, do “desenvolvimento”, sem lembrar que sem ela, não haverá Brasil com futuro. As chuvas do cerrado, onde está a maior produção da milagrosa agroindústria, deixarão de existir. Assim como faltarão para a área mais adensada do País, o nosso Sudeste, onde está a economia e que igualmente o espaço em que a cultura permite o melhor uso da tecnologia. Tudo será afetado se a Amazônia sucumbir.
Para mostrar que o interesse pela “Hileia Brasileira” não é recente, pense-se que Euclides da Cunha, que lá esteve como engenheiro e como jornalista especial do “Estadão”, a descreveu como “um ser ainda disforme que o Homem arrancou a fórceps do útero da Natureza”.
Mas não deixou essa definição no seu livro “À margem da História”, substituindo-a por “O homem chegou ali sem ser esperado nem querido – quando a Natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão”. E também escreveu, no prefácio de “O Inferno Verde”, de Alberto Rangel: “A Amazônia é uma página do Gênese, ainda por escrever!”.
Corre-se o risco real de que ela nunca venha a ser escrita!

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.
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