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A urgência da sensatez: o debate sobre a jornada de trabalho precisa de um ambiente neutro

Luiz Arthur Pacheco (*)

A discussão em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 8/25), que prevê o fim da escala 6×1 e a implementação de uma jornada de 36 horas semanais sem redução salarial, atingiu o ápice do debate público em 2026. Trata-se de um tema que desperta paixões e mobiliza anseios legítimos da sociedade brasileira, como a busca por saúde mental e maior convívio familiar. No entanto, a magnitude dessa transformação nas relações de trabalho exige que a análise técnica se sobreponha à retórica passional, especialmente em um ano marcado por processos eleitorais.

No âmbito de suas esferas de representação, o Sinditêxtil-SP e a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) têm defendido que a modernização da jornada de trabalho deve ser pautada pela racionalidade econômica. Recentemente, o Sindicato foi signatário do manifesto juntamente com a Abit e outras 172 instituições destacando a necessidade de equilibrar o bem-estar social com a produtividade e a competitividade do país. O receio é que uma mudança abrupta e imposta por decreto possa asfixiar empresas, elevar custos operacionais e, em última instância, prejudicar o próprio trabalhador através da precarização do emprego e do aumento da informalidade.

Um dos pontos mais críticos dessa discussão é o seu timing. No atual cenário de 2026, com a proximidade das eleições, o debate sobre a jornada de trabalho corre o risco iminente de ser contaminado pelo oportunismo político e por discursos de caráter populista. Reformas estruturais que impactam o Produto Interno Bruto (PIB) e a sustentabilidade de milhares de empresas não podem ser decididas sob o crivo de promessas eleitorais que visam ganhos de curto prazo em detrimento da estabilidade econômica futura.

Por essa razão, defende-se que a profundidade deste debate seja preservada e que o foco legislativo seja deslocado para 2027. Adiar a conclusão dessa pauta para o próximo ano é uma medida de prudência que permitiria um ambiente político mais sereno, livre das pressões típicas de períodos de votação. Somente fora do calor das urnas será possível construir uma transição gradual e segura, fundamentada em dados reais de produtividade e não em conveniências partidárias.

A indústria têxtil paulista, que já enfrenta desafios produtivos severos e convive com taxas de juros elevadas, não possui margem para erros. Estudos e consultas realizadas com empresas associadas indicam que a redução da jornada sem a correspondente redução de salário aumentaria drasticamente os custos de produção, o que inevitavelmente seria repassado ao consumidor final, encarecendo fretes e insumos básicos. Sem um ganho de eficiência técnica ou automação que compense a redução de horas, o Brasil corre o risco de perder ainda mais competitividade no mercado global.

A modernização é um conceito que o setor têxtil abraça, mas ela deve vir acompanhada de segurança jurídica e diálogo franco. O país precisa de soluções que integrem a inovação tecnológica à valorização do capital humano, sem ignorar a matemática financeira que sustenta a atividade industrial. A discussão sobre a escala 5×2 ou a jornada de quatro dias deve ser o desfecho de um processo maduro de negociação coletiva e estudos setoriais, e não uma imposição legislativa apressada.

Portanto, a responsabilidade deve ser a tônica deste momento. É imperativo que as lideranças políticas e a sociedade civil compreendam que o futuro do trabalho no Brasil é importante demais para ser sacrificado no altar do populismo. O amadurecimento técnico do tema no próximo ano, em um ambiente desprovido de cunho eleitoral, é o único caminho para garantir que o avanço social pretendido não se transforme, ironicamente, em um retrocesso econômico para o Estado de São Paulo e para toda a nação.

(*) É presidente do Sinditêxtil-SP

Foto: Luiz Arthur Pacheco, presidente do Sinditêxtil-SP – Crédito: Carol Carquejeiro

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