A “toxidade” do neologismo “pessoas tóxicas”

Cesar Tólmi (*)

Atualmente, coachs de relacionamento, psicólogos, psicanalistas…, como se detentores de uma fórmula mágica, “brotam em todos os cantos” feito ervas daninhas, dentro e fora das chamadas “redes sociais” que mais parecem “redes antissociais”, e aconselham, proferindo palavras do tipo: “Se valorize; tenha amor próprio; se afaste de ‘gente tóxica’, que potencializam seus ‘gatilhos’ psicológicos’; busque pessoas que tenham afinidades, que realmente se importem com você!”

Particularmente gosto de relações que “potencializam meus gatilhos…”, que põem diante de mim, como espelho, aquelas coisas que preciso superar para tornar-me melhor, não só aos outros mas também e, principalmente, a mim mesmo. Estamos no mundo, com pessoas complexas, de variadas características, personalidades desenvolvidas ao longo de suas vivências; segregar por um padrão pessoal de superioridade qualitativa é não só impossível como empobrecedor às relações. Não dá para existir em uma “redoma de vidro”. Precisamos amadurecer para saber “entrar e sair” dos diversos contextos existenciais melhores do que antes. O egocentrismo tem se acentuado em nossos dias, infelizmente, mascarado de amor próprio… Não há formula mágica para as relações. “Maturidade existencial” é o que mais precisamos! Porém, amadurecer conscientemente dá trabalho…, e dói! Quantos, em nossos dias, admitem o trabalho e as dores inerentes ao amadurecimento e tão necessárias? Estamos, cada vez mais, entrando na desumana onda do “cada um por si…”.

Ao contrário do que se costuma pensar, relações saudáveis não são acontecimentos fortuitos, “encontros repentinos de afinidades”, mas “construção”, mediante cooperação profundamente responsável das partes envolvidas. “Relacionamento saudável” resulta de comprometimento! Mas, em um tempo que as pessoas pouco se comprometem, preferindo a fluidez acelerada de todas as coisas, como se construir relações saudáveis? Claro que não podemos ter controle do nível de comprometimento do outro nem de variáveis independentes do outro e de nós mesmos, que, vez e outra, nos empurram para longe, separa-nos… Tais afastamentos e separações são plausíveis. Aliás, há separação que pode ser tida como decisão amorosa! O que não podemos, como profissionais de psicoterapia, de desenvolvimento humano, é glamurizar e fomentar o egocentrismo que o sistema comercial já tem feito massivamente.

Fico horrorizado ao ver tantos profissionais de psicoterapia dando “dicas de relacionamento” nas chamadas redes sociais, generalizando os relacionamentos, quando cada relacionamento possui suas particularidades, de maneira que, somente em atendimento particular, isto é, distinto, podem ser auxiliados de maneira séria, honesta e, consequentemente, podendo gerar os melhores resultados. O maior problema em nosso tempo é que há muita gente se metendo na vida de muita gente, aconselhando e vendendo soluções mágicas, quando cada pessoa sabe “onde, em que circunstância e com que intensidade dói o seu próprio calo”!

Precisamos acordar para o deletério modismo dos neologismos tais como “pessoas tóxicas”. Nenhum neologismo é intencional e muitos se originam de intenções negativas. Neologismos surgem, geralmente, em publicações em jornais, revistas e demais meios de comunicação, como as chamadas redes sociais. As publicações possuem intenção e devemos tomar cuidado com a intenção de segregar, gerando preconceitos mediante esteriótipos comentados por neologismos. No que refere-se ao desumano neologismo “pessoas tóxicas”, é importante que entendamos que não há “pessoas tóxicas”, mas relacionamentos bons e/ou relacionamentos ruins em maior ou menor grau. Infelizmente, a sociedade humana está entrando em uma espécie de “bolha de neurose”, desenvolvendo comportamentos de psicopatia, isto é, comportamentos excessivamente autocentrados. É fácil perceber que tal neologismo se originou em uma alma profundamente ressentida, cheia de ódio, que, tendo a si mesma como um tipo de “bastião da justiça”, encontrou, nos diversos meios de comunicação, um modo de espalhar o ressentimento, o ódio, formando uma “cruzada virtual” para destruir o diferente, o que não se encaixa nos padrões dessa ou daquela pessoa. Somos, todos, seres humanos, com múltiplas qualidades e múltiplos defeitos, e merecemos, uns dos outros, atenção, solidariedade…, ou no mínimo respeito! Essa “cruzada neologística” precisa perder força… Estamos, de muitos modos, por motivos escusos de certos grupos, sendo postos uns contra os outros de diferentes maneiras!

Estejamos atentos: uma sociedade é facilmente destruída a partir do empobrecimento de seu idioma. O pensamento, toda a capacidade cognitiva, se constitui e se desenvolve mediante palavras, expressões. Mude as palavras, as expressões e mudará a capacidade cognitiva, a maneira de uma pessoa pensar.

Para finalizar, tomo de empréstimo uma expressão de Sartre, mais propriamente de uma peça teatral de sua autoria, e assim chamo atenção para o fato de que, para aquele que se considera santo, superior aos demais, “o inferno são os outros”, sempre…

(*) É Psicanalista, jornalista, filósofo, neurocientista clínico, pós-graduando em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica, em Análise do Comportamento, em Estudo da Linguística e MBA em Gestão Estratégia de Pessoas; escritor, artista plástico autodidata, idealizador da Neuropsiquiatria Analítica, integrada aos campos clínico, forense, jurídico e social; diretor-fundador do IBEI Group – Instituto Brasileiro de Educação Integrativa.

Site: http://www.ibeigroup.com

Imagem obtida em pesquisa na internet e editada.

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