Pressão nos alimentos, influenciada por clima e oferta, impacta o orçamento das famílias e se reflete também no interior paulista
O araraquarense precisou trabalhar quase 18 dias para garantir os itens básicos, em março. O dado reflete um cenário de pressão sobre os preços dos alimentos em todo o país, influenciado por fatores como clima, produção agrícola e oferta reduzida de itens essenciais.
Em Araraquara, a realidade acompanha esse movimento nacional. Segundo levantamento do Núcleo de Economia do Sincomercio, o custo médio da cesta básica chegou a R$ 1.075,82, um aumento de 1,92% em relação ao mês anterior, exigindo cerca de 146 horas de trabalho de quem recebe salário mínimo.
A evolução recente dos preços evidencia essa tendência, como mostra o gráfico abaixo:
Gráfico 1 – Evolução do custo médio e variação mensal da cesta básica em Araraquara – março/2025 a março/2026

Fonte/Elaboração: Sincomercio Araraquara
O avanço dos preços não é um fenômeno isolado. Em março, o custo do grupo dos alimentos aumentou em todas as 27 capitais analisadas pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo DIEESE em parceria com a Conab. As elevações mais expressivas foram observadas em Manaus (+7,42%), Salvador (+7,15%) e Recife (+6,79%). Produtos como feijão, carne bovina e itens básicos do dia a dia lideraram as altas, impactados principalmente por questões climáticas e pela redução da oferta no campo.
Esse cenário também se reflete nos municípios do interior. Em Araraquara, o grupo de alimentação — que concentra o maior peso na composição da cesta — registrou alta de +2,29% no mês ou aumento de R$19,83 no preço médio, sendo o principal responsável pela elevação do custo total. Entre os itens que mais sofreram inflação, a cebola teve disparada de 70,4%, enquanto o feijão carioca — item essencial na mesa do brasileiro — subiu 19,4% no mês.
O queijo muçarela (peça) foi o segundo item da pesquisa que mais afetou os consumidores em março, com aumento de 18,5% impactado pela redução da produção de leite no início do ano, influenciada por custos no campo e condições climáticas. Para o produtor rural Ricardo Junqueira, de Minas Gerais, o movimento está relacionado ao ciclo produtivo do leite, que tende a aumentar entre outubro e fevereiro, período de maior volume de chuvas. “Em cenários típicos, essa maior oferta contribui para a queda dos preços, em contraste com a alta observada entre março e setembro, quando os pastos estão mais secos”, explica.
Já o café torrado e moído foi o item que mais ajudou a aliviar o bolso no período, com queda de preços influenciada pela maior oferta do tipo robusta e pela proximidade da colheita.
A variação dos principais itens da cesta básica no mês pode ser observada no gráfico a seguir:
Gráfico 2 – Variação mensal do preço médio dos produtos componentes da Pesquisa de Preços da Cesta Básica em Araraquara – março/2026

Fonte/Elaboração: Sincomercio Araraquara
Em termos monetários, o feijão carioca de notas 9 ou superiores se destacou ao atingir o maior valor da série histórica do Cepea/CNA, iniciada em setembro de 2024, com alta acumulada de 48,3% no primeiro trimestre do ano. O aumento está relacionado à restrição de oferta, dificuldades na colheita e expectativa de menor produção nas próximas safras.
A trajetória recente do preço do feijão mostra a intensidade dessa alta:
Gráfico 3 – Evolução do preço médio e da variação mensal do feijão carioca – março/2024 a março/2026

Fonte/Elaboração: Sincomercio Araraquara
“Quando a gente observa o comportamento da cesta básica, fica claro que o impacto vai além dos números. O aumento de itens essenciais, como o feijão, tem relação direta com fatores estruturais, como clima, produção agrícola e oferta. Isso mostra que o consumidor está cada vez mais exposto a variáveis que não controla, o que pressiona o orçamento mesmo quando a inflação geral parece estável”, explica a economista Maria Clara Kirsch, do Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara.
Para o consumidor, essa pressão já é sentida no dia a dia. A auxiliar administrativa Ana Paula Souza, de 38 anos, relata mudanças nos hábitos de consumo. “A gente vai ao mercado com a mesma lista, mas cada vez traz menos coisa. O feijão, por exemplo, ficou bem mais caro. Acaba tendo que substituir ou cortar alguns itens”, afirma.
Apesar da variação acumulada da cesta básica em 12 meses ser praticamente estável (+0,01%), o comportamento interno dos preços revela um cenário de instabilidade, com aumentos expressivos em produtos essenciais e quedas pontuais em outros itens.
Atualmente, o custo da cesta básica representa cerca de 66,4% do salário mínimo, evidenciando o peso da alimentação no orçamento das famílias e reforçando a sensibilidade do consumo às oscilações do setor produtivo.
Serviço:
Sindicato do Comércio Varejista de Araraquara (Sincomercio)
Avenida São Paulo, 660 – Centro
Contato: (16) 3334-7070
economia@sincomercioararaquara.com.br
www.sincomercioararaquara.com.br/nucleo-economia
(Fernanda Chiossi – Grupo Inca)