Vera Botta (*)
“Bogé”: o Comandante da Alegria é homenageado pela Câmara e por sua comunidade.
A Câmara lotada em pleno sábado à tarde. A comunidade afrodescendente disse presente. Havia no ar um sentimento de orgulho, de pertencimento a um grupo que tem, na raça, a força guerreira de uma luta. Liderado por uma incrível figura humana, Oswaldo da Silva ou simplesmente “Bogé”, o qual vem representando esta comunidade. Dando-lhe a devida valorização, abrindo alas para a expressão de sua identidade e das suas raízes.
Tive, como vereadora, o privilégio especial de homenagear Bogé com o título de Cidadão Benemérito, o que não foi para mim, um ato formal, mas um momento de alegria, de profunda emoção. Homenagem que vejo como reconhecimento da Câmara, que representa a cidade, por sua trajetória de dedicação a nossa cultura. De sua luta para manter viva uma parte preciosa dessa cultura, o nosso carnaval… De sua doação, sem esperar nada em troca. Por isso, permito-me carinhosamente chamá-lo de Comandante da Alegria. Alegria e construção que você compartilha de maneira muito especial com sua família e que você passa a todos que se aproximam de você, a sua comunidade.
A união da família no amor pelo samba
Durante todo ano, o espaço do barracão e da casa se fundem. A harmonia familiar está presente na construção compartilhada com amigos, tendo como fundo um cenário de histórias, de enredos, nos quais fica explícito o amor incondicional de Bogé pelo carnaval. Por isto, a identidade transmitida pelo Bogé a esta comunidade que o respeita e o vê como símbolo de resistência cultural. E não é por acaso e sim por merecimento, que vem de sua garra, de sua forma simples de ser, de sua capacidade de cultivar em sua comunidade tesouros humanos que vêm da lealdade, da amizade, do companheirismo, da sua vontade de semear alegria e felicidade.
A trajetória pelo samba araraquarense
Ao contrário do que se imagina, a história do samba em nossa Morada não é recente. O respeito por Bogé vem do seu pioneirismo e entusiasmo desde os primeiros Blocos na década de 40 (Bloco dos Anjos do Carmo), da sua participação no Trio Sumaré, da sua condição de amante da Festa do Momo onde sua passagem sempre foi cultivada intensa e dedicadamente. Não era e não é aquele fascínio que passa e se evapora como bolhas ao vento. O gosto, a paixão, e a empolgação que Bogé vem dando ao Carnaval de Araraquara é uma prova do seu amor por nossa Morada do Sol, é o presente que tem, ano a ano, dedicado a nossa terra, independentemente dos tempos serem mais ou menos difíceis. O olhar atento com que Bogé acompanha a Escola de Samba “Estrela de Vila Santana” é parte de suas raízes, expressão de sua obstinada luta por não deixar calada a voz de uma comunidade que tem no samba e no carnaval, um estímulo de vida e de vontade de semear utopias.
A chama da alegria não pode apagar!!
Como manter acesa a chama do gosto e da paixão pelo carnaval por todo este tempo? Como isto foi passado aos filhos de sangue e aos filhos adotados pelo carnaval? Qual é o segredo de Bogé?
Sem receitas mágicas, o que ele vem fazendo é cultivar com muito amor o brilho das estrelas e alimentar em seus pupilos o encantamento pelo carnaval. A vontade de unir a família, de estar junto, de fazer do samba o passaporte da alegria são os ingredientes usados pelo comandante Bogé para fazer da sua casa, do seu canto aconchegante, um lugar em que as pessoas chegam e ficam. Sentindo-se parte desta grande família que tem mostrado, no dia-a-dia e nos momentos de espetáculo, na avenida, na veia guerreira vivida e cantada que forma um grande reservatório de carinho, de solidariedade, de amizade.
Comandante com respeito de pai
É com esse respeito que Bogé foi recebido por sua família e por toda comunidade que se fez presente na Câmara em um ensolarado dia azul. A emoção falou mais alto e os protocolos foram quebrados com a simplicidade e espontaneidade de um Cidadão legitimamente Benemérito. De alguém que significa muito para o bairro do Santana e para a cidade que amamos e queremos ver cada vez melhor. A mim, cabe agradecer por ter sido a mensageira desta homenagem.
A Coluna fica por aqui. Desejando que neste domingo, Dia dos Pais, o amor e o respeito sejam o prato principal do almoço familiar. Ao Gustavo, em especial, que vem sentindo a gostosa expectativa de ser um futuro papai, o beijo estalado da mamãe. Boa semana a todos. Até a próxima!
(*) É pesquisadora da Uniara.