José Renato Nalini (*)
As Academias modernas, inspiradas no Liceu Akademos de Platão, inauguradas em França por Richelieu no século XVII, espalharam-se pelo mundo. Deveriam ser pugilos de seres qualificados, extraordinariamente bem providos de atributos e de valores. Pode-se dizer que a maioria atende a tais requisitos. Mas as instituições, como os homens, padecem de morbidades. Então acolhem também exemplares que não se adequam ao regramento de trabalho em cooperação. Continuam a perseguir seus objetivos individuais e personalíssimos. São egos que não apreciam e nem têm talento para atuar coletivamente, de forma uníssona, cujo objetivo único seria o engrandecimento do ideal traçado pelos fundadores.
Se isso hoje é fenômeno normal e rotineiro, não se estranhe que na própria Academia Brasileira de Letras, criada em 1897 por Machado de Assis e alguns amigos, desde o início já se registrassem rusgas, ressentimentos, alusões pouco generosas de alguns membros em relação aos demais.
Humberto de Campos é um desses críticos. Diz ele: “Academia. Sessão ordinária. E durante a sessão, e depois dela, a convicção de que a Academia atravessa um período de imbecilidade. Percorrendo a arquibancada, vê-se, com tristeza, que o número dos medíocres se avoluma assustadoramente, e que, na companhia deles, os homens de cultura perdem, aos poucos, o gosto de trabalhar. Os poucos papagaios dos Aturés que ainda ali existem, em vez de falarem bem alto, como um protesto, a língua da tribo em que foram criados, emudecem, esperando a morte. Na Academia de hoje, eu chego, quase, a ter saudades da Câmara…”.
É que Humberto de Campos fora parlamentar e, àquela altura, na primeira metade do século XX, o Parlamento já não era a Casa de ressonância das aspirações populares, mas o encontro da fome com o interesse mesquinho, longe da busca daquilo que é melhor para a sociedade que os elegeu como representantes seus.
A fissura de caráter dos humanos atinge indistintamente a todos. Ninguém escapa à mácula do que nós, que cremos, chamamos de pecado original.
(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.