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Estreia poética

José Renato Nalini (*)

A poesia é prosa musicada. Trabalhar com as palavras, fazê-las por vezes rimar, outras vezes, ainda que sem rima, transmitir ideias sublimes, é para talentos raros. Nem toda concatenação vocabular é poesia de verdade. Mas há quem se considere “poeta” e não se canse de produzir versos, que servem como exercícios de comunicação às vezes até interessantes.

Todo intelectual tem a pretensão de fazer poesia? Nem todos. Mas aqueles que querem sê-lo, sem a natural provisão do dom, estes às vezes produzem casos curiosos. Ou seja: fornecem material para reflexão ou, ao menos, para tornar a vida mais temperada com humor.

Foi o que aconteceu com Alberto de Oliveira, nome pelo qual era conhecido Antônio Mariano Alberto de Oliveira, (1857-1937), um dos líderes do parnasianismo brasileiro. Tinha ele um irmão, Mariano de Oliveira, que era “o poeta da família”. Fazia bons versos. Alberto sentiu inveja irreprimível e quis também “poetar”.

Escolheu um soneto já publicado, modificou-o, quis dar uns toques de originalidade aqui e ali, alterou uma ou outra palavra. Submeteu o resultado a seu irmão Mariano. Este achou que o soneto era aproveitável. Aconselhou Alberto a continuar, pois restava explícita a sua vocação para a arte.

Incentivado pelo irmão, Alberto começou a perpetrar seus próprios poemas. Levou-os novamente a Mariano. Que respondeu: – “Estes não estão propriamente maus. Mas aquele anterior era bem melhor!”.

Alberto sentiu vontade de contar ao irmão o que fizera. Hesitou e só pediu que Mariano devolvesse o soneto. E o irmão retrucou: – “Agora não dá mais. Achei-o tão bom, que mandei para um jornal de Campos, para publicação, como incentivo à sua carreira de poeta!”.

Quando contava esse episódio mais tarde, Alberto sentia-se compungido: – “Se por acaso vocês encontrarem por aí um soneto de Francisco Otaviano com o meu nome, não me levem a mal! Foi minha estreia poética!”.

Alberto de Oliveira tornou-se grande poeta parnasiano, integrante da “tríade” dessa escola no Brasil, completada por Raimundo Corrêa e Olavo Bilac.

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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