Professores: semeadores do futuro
Dia 15 de outubro. Pouco comemorado, o Dia do Professor nos põe, mais uma vez, face a paradoxos. De um lado, o fascinante e paciente processo de aprendizagem, de formar, de motivar crianças para que adquiram gosto pelo estudo. De um processo continuado de ensinar e aprender que rompe as fronteiras da idade. De outro, a triste realidade do professor no Brasil. De um total de 38 países desenvolvidos e em desenvolvimento, o Brasil só não paga pior aos seus professores em início de carreira do que o Peru e a Indonésia. E que condições damos ao professor para valorizar a importância de sua sementeira? Poucas, reveladoras de uma desvalorização crescente daqueles que fazem brotar idéias.
De nada valem propagandas enganosas e promessas
Fala-se e escreve-se muito sobre a importância de se colocar e manter a criança brasileira na escola. Como enfrentar este desafio sem avaliar os atalhos e problemas enfrentados na difícil caminhada do Professor??? Como modificar a radiografia educacional do Brasil que se mostra em sintonia com as nações mais atrasadas do mundo, apesar de investir 4,8% de seu produto interno bruto (PIB) no ensino público? Mistérios no ar… Este PIB atraente não vai, com certeza, parar na bolsa dos professores. Na ativa ou aposentados, aparecem como heróis em datas comemorativas. Passada a data festiva, voltam os problemas. E os mesmos, teimosamente, continuam a semear…mesmo em rota de crise…
O que faz o querer ser professor?
Não é para manter status. O período do professor bem pago, valorizado já é, desde muito, passado. Os tempos presentes são duros para os professores. Quando se manifestam publicamente, por reivindicações de melhor salário e condições de ensino, são tachados de perigosos. Transgressores da ordem, desordeiros que ousam falar… Estigmas que não são suficientes para tirar os professores da trilha de sua missão: ensinar, não no sentido restrito de transmitir conhecimentos empacotados, mas de formar cidadãos, de gerar pensamentos crítico, de semear responsabilidades sociais e educacionais.
Inexplicável, talvez, o querer ser professor. Ontem, dia 15, dia do Professor, em uma reunião na UNIARA, uma excelente professora; Maria Aparecida Lima Grande, iniciou sua fala dizendo: “Não sei se é bom ou não, mas na outra encarnação, quero ser novamente professora”. Este querer não é nada lógico. Nasce e cria raízes. Quem foi professor nunca deixa de sê-lo. Penso em Mara Cortese, minha grande amiga que dedicou anos e anos de sua vida alfabetizando crianças de nossa Morada. Passando finais de semana criando, pensando em como chegar mais perto desses pequenos seres…
Lembro-me emocionada de minha mãe, D. Edith Botta, que nos deixou há 2 anos, minha primeira professora, das primeiras letras, de toda uma vida. Quantas crianças mamãe alfabetizou? Impossível calcular. Durante 25 anos em que lecionou no Pedro José Neto levou os primeiros ensinamentos a muitos e muitos. Adorava alfabetizar, vibrava com os olhinhos vivos das crianças diante das primeiras palavras formadas, da descoberta do ler, de se comunicar com o mundo. Certamente, minha mãe tem muito a ver com o prazer que sinto de estar há mais de 30 anos envolvida na dor e delícia de ser professora. E fazer desta caminhada, um estímulo renovado de vida.
O que tem sido para mim ser professora
É difícil descrever, passo a passo, o vivido em mais de 30 anos de carreira. Comecei a dar aulas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras antes de completar 22 anos de idade. Atribuíram-me uma turma de Sociologia Geral, inteligente e questionadora, com direito a ter até promotor público, nosso querido Dr. Ítalo Fucci, como aluno. Fui paraninfa dessa primeira turma e a homenagem representou, mais do que um ritual formal, a convicção de que vale a pena investir em uma boa sementeira.
Bem vindos e benditos os frutos
Orientei muitos alunos, inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado. Os números não importam. O que vale é que esta orientação não foi feita por dever do ofício, mas pelas marcas gratificantes gravadas em minha trajetória. Pela emoção de ver um trabalho concluído, de acompanhar jovens pesquisadores comprometidos com o retorno social do conhecimento. Dessa longa estrada, tenho marcas e cicatrizes. Nunca compactuei com a freqüente atitude de descompromisso na criação de elos com a sociedade. Situação que me estimulou a buscar, através da política, como vereadora, portas de entrada que me levassem ao encontro de minha cidade e de seus cidadãos. E confesso, ser vereadora não deixa de ser a continuidade de um sacerdócio, de um querer mudar…Minha trajetória tem me levado e não poderia ser diferente- a sensibilizar-me com as lutas das (os) professoras (es) em todos os seus níveis. E de ter, como prioridade forte de mandato, a defesa de um Plano de Cargo, Carreira e de Salários, no qual o ser professor seja valorizado em todos os sentidos. Como o de um legítimo semeador do futuro!
A Coluna fica por aqui. Dedicada a todos professores de nossa cidade. Nas pessoas dos queridos D. Fanny, que me deu por 7 anos aulas de Francês, de José Aluysio Reis de Andrade e de Alcyr Azzoni, meus professores de Filosofia e de Geografia, uma homenagem especial. O que vocês me ensinaram está guardado no meu peito, bem perto do coração. Até a próxima!!
(*) É pesquisadora da Uniara e vereadora pelo PT.