Nestes dias recentes de jogos da Copa lá no Japão, todos estivemos vendo, na TV e nos jornais, as escritas próprias da língua japonesa, compostas por um monte de rabiscos que nada têm a ver com nosso modo de escrever.
Já comentei muitas vezes sobre a língua dos japoneses e não me canso de repetir que, de todas as línguas naturais que tenho noção, o japonês é a que tem maior perfeição fonética, ou seja, a que tem pronúncia de forma mais completa, de acordo com as sílabas, do começo até ao fim de cada palavra.
Já ouvi muitos brasileiros reclamarem que os americanos escrevem de um jeito e falam de outro, mas nós fazemos quase igual, como disse na semana passada, porque engolimos sílabas e engolimos muitos sons que estão no final de nossas palavras. Nós escrevemos, por exemplo, casa e falamos "cazz", escrevemos supermercado e falamos "supermercádd", escrevemos está e falamos "tá", assim por diante.
Em japonês, o povo fala através de sons de sílabas padronizadas, num total de 72 sons. Com esses 72 sons das 72 sílabas deles e alguns poucos ditongos, eles falam todas as palavras japonesas e também pronunciam as palavras de qualquer língua que eles quiserem. O único problema é que as tais 72 sílabas são somente aquelas das palavras da língua deles; seria impossível que eles tivessem as sílabas das outras línguas.
Vou dar um exemplo: eles não têm a sílaba ci ou si. Sendo assim, para falarem meu nome, eles usam o som mais próximo, que é chi, e pronunciam, portanto, Gu-a-ra-chi. Na realidade, em sinal de respeito, eles dizem Guarachi-Sam. Como também não têm os sons la-le-li-lo-lu, o nome da Cilene eles dizem Chi-re-ne.
Vamos supor que eu vá apresentar, a um japonês, uma jovem chamada Carolina. Não adianta eu apresentá-la assim porque o japonês não vai conseguir dizer o nome dela de saída. Sendo assim, eu deverei apresentá-la com a seguinte frase: "Korê ShioDjo wa Karorina-Sam dêssu".
Quem conhece as 72 sílabas deles tem mais facilidade para passar nossas palavras à pronúncia deles. Nos cartazes que havia no fundo do campo de futebol da Copa, a palavra Brasil, escrita nos caracteres deles, ficou assim: "Bu-ra-djí-ru". Da mesma forma, na propaganda que eles fazem do Mac Donald deles está escrito: "Má-ku Do-ná-ru-do". Outro dia, vendo na TV o canal japonês, apareceu um Médico sendo entrevistado sobre colesterol e ele falava: "Ko-re-su-te-rô-ru".
Os japoneses têm duas coleções de 72 letras para escrever as sílabas deles. Uma coleção tem as letras arredondadas, como a terceira do título desta crônica, que é "no" e significa "de" ou "pertencente a". É o alfabeto chamado Hiragana, com o qual eles somente escrevem as palavras próprias da língua deles. As outras 72 letras têm poucas curvas, como as três últimas do título, onde está escrito "de-i-to". É o alfabeto Katakana, para escrever palavras estrangeiras. "Deito" é uma palavra que eles tomaram do inglês.
Sendo assim, Brasil, Guaracy, Cilene e Mac Donald, eles escrevem em Katakana.
O alfabeto complicado deles é o chamado Kandji, que tem alguns traçados simples, mas tem aqueles complicadíssimos que a gente vê nos jornais deles e somente serve para palavras japonesas.
Acontece que aqueles traços não são lidos. Eles são interpretados, tanto é que a palavra Kandji significa "sentimento, sensação, impressão".
Vejam só que interessante: Aquela primeira letra do título da crônica, estando sozinha, eles lêem "ni", que é o número dois. A segunda, estando sozinha, eles lêem "hitô", que quer dizer gente ou pessoa. As duas estando juntas, como no título, o japonês não irá jamais dizer "ni-hitô", porque eles têm uma palavra para dizer "duas pessoas" ou "casal", que é "FUTÁRI".
A esta altura, todos os leitores já leram o título da crônica, que é: "FUTÁRI NO DEITO", ou seja "O ENCONTRO DE DUAS PESSOAS".
Na língua japonesa, eles não têm uma palavra para representar o encontro de duas pessoas para formar um casal. Sendo assim, eles tomaram do inglês, a palavra "date" e a adaptaram às sílabas deles dando "Deito".
Porque eu escrevi tudo isto? Exatamente porque hoje, 14 de julho, é o dia em que a Cilene e eu nos conhecemos, em 1989. Hoje é o nosso FUTÁRI NO DEITO". Hoje nós estamos muito felizes, comemorando nossa data especial.
As duas fotos que hoje ilustram este espaço foram tiradas em anos diferentes, no dia 14 de julho, comemorando nosso FUTÁRI NO DEITO em algum lugar.
Houve um ano em que comemoramos a data lá na Pousada do Rio Quente. Por coincidência, havia um grupo enorme de japoneses que estavam fazendo um caraoquê no pátio. Não deixei por menos: falei com o dirigente deles e cantei, em japonês, uma música dedicada à Cilene, justamente alusiva ao "Futári no deito", a qual me foi ensinada pela grande mestra araraquarense da língua japonesa, Dona Rosa Babá, a quem respeito e estimo.
Neste ano não viajamos porque a Cilene está preparando a monografia dela para sua formatura em Direito. Sendo assim, estamos esperando para sermos cumprimentados pelos amigos nesta nossa data especial, porque nos queremos muito bem e somos inseparáveis.
Soubemos que hoje, dia 14, estará havendo uma missa especial na Igreja Matriz, laudatória a São Bento, que é o Padroeiro de Araraquara. Essa coincidência de datas é um belo motivo para a Cilene e eu amarmos mais Araraquara, porque foi aqui que se deu nosso "Futári no deito", sendo o lugar certo para nós dois vivermos e compartilharmos nossas vidas.