Edinho Silva (*)
Foi muito triste a notícia sobre a morte da jovem Nanci Maisa Bonifácio do Nascimento. Aos 19 anos foi morta por seu companheiro Alan Adriano Dias Pinheiro, também de 19 anos, que suicidou-se em seguida. O casal tinha um filho de dois anos. Nanci cresceu no bairro Santana e marcou sua existência pela alegria, simpatia e respeito com que tratava a todos. Tinha “sangue de artista”. Foi aluna da primeira turma da Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira, foi da turma que significou a realização de um sonho: democratizar a cultura em Araraquara, mostrar que a cultura poderia ser um potente instrumento de inclusão social e construção da cidadania. A Escola Iracema Nogueira foi um sonho sonhado pela Gilsamara Moura e que contagiou o nosso governo como um todo.
Nanci sempre chamou muito a atenção: olhar vivo, desenvoltura, espontaneidade (ela tinha orgulho em vestir o uniforme vermelho e amarelo da escola e sair às ruas, visitar meu Gabinete enquanto prefeito). Muitas vezes Nanci liderou comissão de alunos e alunas para falar comigo.
O irmão dela, Andrezinho, integrou o Grupo Cascabun e atualmente compõe Homens de Lata, um dos mais requisitados conjuntos de pagode da região.
Nanci marcou com seu entusiasmo pela adaptação do prédio de um antigo armazém da ferrovia para abrigar a Escola de Dança, com instalações modernas e amplas e com toda a estrutura para as atividades dos alunos. Em muitas ocasiões a encontrei e pude sentir sua alegria ao se tornar bailarina profissional. O sonho de viver da dança estava suspenso, porém, desde o nascimento de seu filho. Mas nunca abriu mão da sua carreira.
É impossível mensurar a dor das duas famílias abatidas por tamanha tragédia. A vida às vezes nos impõe aflições para as quais não estamos preparados e nunca estaremos. Que Deus conforte e ilumine as famílias para que tenham serenidade e possam cuidar do filho do casal e o protejam de outras formas de violência.
Este foi um crime passional, porém, nós que ocupamos cargos públicos precisamos estar atentos e trabalharmos cotidianamente para reduzir a violência, especialmente contra a mulher. É lamentável que em menos de dez dias duas jovens mulheres tenham perdido a vida devido à típica violência. Não podemos aceitar de forma banal que sejam mortas pela condição de mulheres que ocupam. A vida da jovem Nanci não pode ser em vão. Temos que entender o que acontece na Morada do Sol (duas vidas ceifadas em tão pouco tempo: Ana Cláudia Rossi e Nanci), é preciso que tenhamos iniciativas concretas no combate à violência.
A Nanci continuará dançando em nossas memórias, seus sorrisos continuarão em nossas lembranças. Sua astucia, sua inteligência serão o maior estímulo para que continuemos a lutar pela democratização da cultura, das oportunidades, para que outras Nancis possam existir, para que seu exemplo esteja sempre vivo, para entendermos que talento é questão de oportunidade.
Descanse seu jovem corpo Nanci, certamente neste momento seu espírito cheio de vida já esta montando coreografias com outros jovens que partiram tão precocemente. Sob olhares do Senhor da História você já está mostrando que a vida sempre vence a morte e que a terra prometida será construída sem violência e opressão. Muitas vezes, muitos nos deixarão para entendermos o caminho.
(*) É deputado estadual, presidente do PT São Paulo e ex-prefeito de Araraquara (2001-2008).