Texto: Rosa Godoy
Diz o velho ditado que “os diamantes são eternos”. E eu completaria, as mães também: são valiosíssimas e insubstituíveis. E mais, apesar de ser uma das poucas coisas na vida que todo mundo tem ou teve uma, são raras, porque são únicas.
Na sociedade atual, assim como em tantas outras, a maternidade é muito valorizada pelo muito que, em geral, as mães fazem (amam) pelos filhos, com este fazer-amor indo desde os cuidados que têm com eles (que também duram toda a vida, independente de serem crianças ou dependentes) até a preocupação, passando por toda a sorte de atenção e afeto.
Na é à toa que na minha vida, a primeira vez que me dei conta desta noção de eternidade do amor e da dedicação maternos, foi quando comuniquei à minha mãe que estava grávida do meu primeiro filho e ela, muito contente (era seu primeiro neto), me advertiu, como sempre, com um grande sorriso nos lábios e aquele olhar maroto: – Bem filha, aproveite para dormir bastante agora pois, depois que seu filho nascer, você nunca mais terá uma noite inteira de sono… Juro que a época não entendi muito bem a dimensão ou sequer a extensão disto mas ainda hoje, cada vez que me preocupo com ele (ou com seu irmão e irmãs) já adultos (e confesso que não são poucas), me vem à lembrança toda a sabedoria contida naquela frase. Levando-se isto em conta, nada mais justo que existir um dia no ano para valorizar este amor.
Também não preciso mais que um olhar de lado para constatar que o mérito da preocupação com os filhos não é exclusividade minha (graças a Deus, sou igualzinha a praticamente todas as mães contemporâneas). Já não se pode dizer o mesmo em relação à persistência histórica desta preocupação. A maternidade é uma condição biológica da mulher que também tem muito de social o que quer dizer que nem sempre as mães agiram da mesma forma nem fazendo as mesmas coisas pelos filhos.
E, por incrível que pareça ainda hoje é assim. Lembro-me que fiquei muito chocada quando uma pessoa me disse que a melhor coisa que sua mãe havia feito para ela tinha sido morrer. Isto porque tinha passado a vida inteira literalmente atrapalhando a sua vida, impedindo-a de crescer, de se tornar independente. Tirando-se a crueza da revelação, se eu tivesse tido aquela mãe e não a minha, não sei se esta não seria a minha realidade.
Apesar de existirem mães desde que o mundo é mundo, na história, o amor materno não necessariamente acompanha a determinação biológica. Houve épocas em que era usual as mães não se preocuparem com os filhos e não cuidarem deles, especialmente entre as famílias das classes mais abastadas. Na Europa da Idade Média, as crianças ricas, assim que nasciam, eram entregues a outras famílias (em geral, mais pobres e em troca de dinheiro) onde outras mulheres as amamentavam, cuidavam delas e as devolviam aos pais somente depois de adultas (compreenda-se que a vida adulta começava bem cedo, uma vez que também não existia o conceito de adolescência). Isto quer dizer que se eu tivesse vivido naquele local e naquela época provavelmente teria dado meus filhos para outras mulheres criarem ou estaria criando filhos de outras mulheres (o mais provável devido à minha origem de classe – operária). O que tem o amor a ver com isto? Igualmente é uma construção histórica, ou seja, eu teria meu filho amado (ou até não, quem sabe!) por outras mulheres ou amaria (ou não) os filhos de outras mulheres.
Origem do Dia das Mães
Apesar das diferenças históricas, as referências ao Dia das Mães são bastante antigas e nascem vinculadas à religião. Entre os gregos havia celebrações dedicadas à maternidade, através da deusa Rhéa, mãe de todos os deuses. A festa era popular e ocorria na entrada da primavera. Os romanos, por volta do ano 250 a.C., tinham festividades dedicadas à deusa Cybele, mãe de todos os deuses romanos, que aconteciam durante três dias consecutivos, no período que hoje corresponderia à metade do mês de março.
As referências mais próximas ao que conhecemos hoje se originaram já na era cristã, provavelmente na Inglaterra, no início do século XVII, em que o quarto domingo da Quaresma era o “domingo da maternidade”. Os jovens operários ficavam em casa, com suas mães e as presenteavam com bolos e doces, em gratidão pela vida e pelo amor.
Nos Estados Unidos, quem primeiro sugeriu a criação de uma data para a celebração das mães foi Júlia Ward Howe, autora da letra do hino do país, em 1872. Porém a data só foi instituída por obra de outra americana, Ana Jarvis, da Filadelfia, em 1907. Ana havia perdido sua mãe e entrado em grande depressão. Preocupadas com aquele sofrimento, algumas amigas tiveram a idéia de perpetuar a memória de sua mãe com uma festa (verdadeiras amigas também são como diamantes – eternas, raras e insubstituíveis). Ana quis que a homenagem fosse estendida a todas as mães, vivas ou mortas e passou a se empenhar nisso. Em pouco tempo, a comemoração se alastrou por todo o país e, em 1914, a data foi oficializada pelo presidente Wilson: 9 de maio. Daí para outros países foi um pulo e hoje o Dia das Mães é comemorado em praticamente todo o mundo. No Brasil, a data é celebrada no segundo domingo de maio, conforme decreto assinado em 1932, pelo então presidente Getúlio Vargas. O primeiro Dia das Mães brasileiro foi promovido pela Associação Cristã de Moços de Porto Alegre, no dia 12 de maio de 1918. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, então Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, determinou que essa data fizesse parte também no calendário oficial da Igreja Católica.
E agora, como é?
Da instauração para cá, tem crescido gradativamente a ênfase à data, hoje muito influenciada pelo apelo comercial que vincula o amor à sua demonstração através de um bem material, bem à moda da lógica capitalista. Domingo passado, os jornais, especialmente os de grande circulação, trouxeram muitos encartes fortemente apelativos à emoção que deve permear o Dia das Mães, é claro, emoldurada por um presente.
No entanto, mais que discutir se isto é válido ou não, acredito que a reflexão a ser feita é sobre o quanto a maternidade tem representado em termos de ônus e bônus para as mulheres, sem em qualquer momento confundir ônus com falta de amor ou bônus com a naturalização dele. O que quero dizer é que cada vez mais tem ficado evidente que o mundo imputa às mulheres a responsabilidade para com os filhos, sem na outra ponta uma correspondente cota social de proteção ou apoio para tanto, provocado justamente por outros fatos sociais – desastrosos – diga-se de passagem. Por exemplo, segundo o censo de 2001, no Brasil como um todo, as famílias comandadas por mulheres passaram de 18% em 1990 para 25% em 2001. Na cidade de São Paulo, elas representavam 24%, sendo que nos bairros centrais, bastante problemáticos por várias razões, eram 38,10%. A causa mais freqüente disto, além do aumento no número de relações maritais desfeitas, é que os homens estão morrendo mais que as mulheres por causas violentas, na faixa de idade em que se constitui família. Isto é mais freqüente quanto mais pobre é a família.
Por acaso estas mulheres amam mais ou amam menos seus filhos, conseguindo ou não cuidar deles o quanto gostariam, por terem que trabalhar duro para sustentá-los? Acredito que uma coisa não tem nada a ver com a outra e que não é isto que deva ser levado em conta quando se comemora o Dia das Mães.
Para mim, este dia é aquele em que rendo homenagem especial àquela mulher que deixou muito de si e levou muito de mim quando se foi da minha vida. E se isto não foi natural, se não foi simplesmente porque nasci da sua barriga, foi porque durante mais de cinco décadas construímos juntas este amor, cuidando dele na medida em que cuidávamos de nós mesmas e cuidávamos uma da outra, com amor e carinho. Fizemos isto quase todos os dias da nossa vida. Nem por isto, hoje sou radical em dizer que todos os dias são dias das mães (confesso que já fui). São mesmo mas, qual é o pecado de existir um dia especial só para elas (nós?)???
(*) É Enfermeira e colaboradora do JA.
PS – Dedico este texto às mães significativas da minha vida: à minha (em primeiro lugar, por tudo) às minhas avós e tias (mulheres maravilhosas e mães sem igual), às mães das minhas amigas (também minhas grandes amigas). Quando crescer, quero ser (mãe) igual a elas…