No Dia da Neuropsicologia, especialista explica como queixas semelhantes podem exigir investigações diferentes e porque os testes precisam ser interpretados junto à história e à rotina da pessoa
Uma pessoa esquece compromissos e passa a desconfiar da memória. Outra não consegue concluir tarefas e se pergunta se tem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Essas queixas podem fundamentar uma investigação, mas, isoladamente, não estabelecem um diagnóstico. Entender como surge, há quanto tempo existem e de que maneira a rotina faz parte do trabalho do neuropsicólogo.
O Dia da Neuropsicologia, realizado em 6 de outubro, coloca em pauta uma dúvida: o que uma avaliação pode esclarecer sobre dificuldades de atenção, memória, aprendizagem e organização? A resposta vai além do desempenho em testes.
Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, um resultado preciso é interpretado em conjunto com informações sobre desenvolvimento, saúde, emoções e condições de vida. A expectativa de obter uma resposta definitiva em um único instrumento pode deixar de fora aspectos importantes da reclamação.
“Teste é uma ferramenta; avaliação é um processo. Um resultado isolado não fecha diagnóstico de TDAH, autismo, depressão, ansiedade ou qualquer outra condição. É preciso entender a história da pessoa, seu desenvolvimento, sua rotina, suas condições de saúde, os medicamentos em uso e o contexto em que aquela dificuldade aparece”, afirma.
Queixas semelhantes, explicações diferentes
Esquecer uma conversa, perder objetos ou ter dificuldade para acompanhar uma leitura são situações que precisam ser contextualizadas. Na investigação, é importante saber se a dificuldade é recente ou antiga, se ocorre em diferentes ambientes e quanto interfere no cotidiano.
Uma queixa de memória, por exemplo, pode envolver dificuldade para prestar atenção e registrar uma informação. Sono inadequado, ansiedade, depressão, estresse, uso de medicamentos e condições neurológicas também podem fazer parte da investigação.
Isso não significa que o esquecimento deva ser ignorado, nem que toda distração indique um transtorno. O objetivo é compreender o relato antes de considerar ele uma causa.
“Duas pessoas podem relatar o mesmo sintoma e precisar de caminhos completamente diferentes. O papel da avaliação é ajudar a entender onde a dificuldade aparece, o que a mantém e quais recursos a pessoa preserva. O objetivo não é apenas encontrar um rótulo”, diz Luanda.
O que acontece na avaliação
A Neuropsicologia investiga as relações entre o funcionamento do sistema nervoso, a cognição, as emoções e o comportamento. Conforme a queixa, a avaliação pode examinar atenção, memória, linguagem, aprendizagem, raciocínio e velocidade de processamento.
Também pode investigar funções executivas, habilidades relacionadas ao planejamento, organização, controle de impulsos, flexibilidade e resolução de problemas.
O processo reúne entrevistas, histórico clínico e de desenvolvimento, observação e instrumentos padronizados. Quando pertinente, informações de familiares, da escola e de outros profissionais ajudam a compreender como as dificuldades aparecem fora do consultório.
Os testes integram essa investigação, mas seus resultados não devem ser lidos como respostas independentes. Uma avaliação precisa ser comprovada junto com muitos dados, e não usada, sozinha, para confirmar ou descartar uma condição.
Neuropsicólogo ou neurologista?
Apesar dos nomes semelhantes, os profissionais têm formação e atribuições diferentes. O neurologista é médico e investiga doenças do sistema nervoso. Pode solicitar exames médicos e prescrever medicamentos quando houver indicação.
O neuropsicólogo tem formação em Psicologia e atuação especializada na relação entre cognição, emoções e comportamento. A avaliação busca caracterizar dificuldades e habilidades preservadas, além de compreender seus efeitos sobre estudo, trabalho, autonomia e relações.
As atuações podem ser complementares. Uma mudança importante de memória, por exemplo, pode exigir investigação médica e avaliação neuropsicológica. Dependendo do caso, psiquiatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais também participam do cuidado.
A investigação em diferentes idades
Na infância e na adolescência, dificuldades de aprendizagem, atenção, comportamento e desenvolvimento podem motivar a avaliação. Informações sobre a trajetória da criança e o ambiente escolar ajudam a contextualizar o que foi apresentado.
Entre adultos, queixas de desorganização, dificuldades para concluir tarefas, atenção instável e falhas de memória também podem levar à investigação. Na avaliação de condições como TDAH e autismo, a história de desenvolvimento integra a análise; as dificuldades atuais não devem ser consideradas isoladamente.
No envelhecimento, a avaliação pode contribuir para caracterizar mudanças cognitivas. Em conjunto com a investigação médica e outros dados clínicos, ajuda a diferenciar alterações esperadas da idade das condições de desligamento do pacote específico.
O que vem depois do laudo
Os resultados podem orientar acompanhamento médico, psicoterapia, estratégias de estudo e trabalho, adaptações na rotina e intervenções de reabilitação. O propósito não se limita a nomear uma condição: inclui identificar necessidades e recursos que podem ajudar uma pessoa no cotidiano.
“Um diagnóstico, quando existe, explica parte de uma história, mas não deveria ser o ponto final dela. O mais importante é transformar a compreensão sobre como aquela pessoa funciona em orientações que fazem sentido para sua vida”, afirma Luanda.
Mais do que responder se alguém “tem ou não tem” transtorno específico, a investigação busca esclarecer o que está acontecendo e quais cuidados fazem sentido para aquele caso. Um teste pode contribuir para essa resposta, mas não substitui a compreensão da pessoa que o fez.
Sobre a Luanda Rosa

Psicóloga e neuropsicóloga (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Atua há 15 anos com avaliação neuropsicológica de adultos, é coautora do livro Protagonismo Feminino e consultora em inclusão de pessoas autistas para empresas. Também participa de podcasts, palestras e eventos sobre autismo na vida adulta e neurodiversidade.
(Tinteiro Assessoria de Imprensa)
Foto Profissional. (Crédito: FreePik)