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A Paciência

João Baptista Galhardo

A paciência consiste em suportar os males ou os incômodos sem queixumes e lamúrias, com resignação. Muito já se refletiu sobre a paciência. Que ela é amarga, mas de fruto doce (Rousseau). Nada de grande se cria de repente (Epíteto). Que a tartaruga conhece a estrada melhor que o coelho. Que uma das grandes desvantagens da pressa é que ela nos faz perder tempo. Na verdade, a paciência é a sabedoria da espera. É preciso ter paciência para sonhar, esperar, acreditar, compreender, amar e modificar. Não significa, porém, passividade, covardia, submissão. Paciência é uma qualidade da alma. É prudência. Sabedoria. Compreensão. A inveja, a raiva e os insultos dos frustrados e irados consigo mesmos, se ninguém ligar continuam pertencendo a quem os carrega. O impaciente acaba cometendo erros. Com paciência consegue-se tudo ou pelo menos evitam-se males maiores. Perguntaram à água que ferramenta utilizara para furar a pedra e sair do outro lado e ela respondeu: – usei a paciência que é a melhor ferramenta que existe.

O mundo está cheio de impacientes. Filhos sem paciência com os pais. Trocam a noite pelo dia. Não se conversam. Pais que não acham tempo para conversar com os filhos. O mesmo entre irmãos. Amigos. Colegas de trabalho. Professores com alunos e vice-versa. Certa vez, uma mãe reclamou do filho que cantava alto e desafinado. “Qualquer dia um dos dois tem que sair de casa”. Disse-lhe que muitas mães de crianças mudas dariam a vida para ouvir seu filho desafinando o dia todo a mesma canção. Lembrei-me então de D. Ângela, amiga da minha família nos meus primeiros anos de vida. Era uma negra simpática, cabelos precocemente grisalhos, bem casada e mãe de cinco filhos saudáveis. Pobre, mas feliz com o que tinha. Cuidava do lar, de sua família e ainda lhe sobrava tempo para tomar conta da Igreja Nossa Senhora do Carmo. O altar, as imagens, os bancos brilhavam com o trabalho voluntário de D. Ângela. Veio-lhe a última gravidez e nasceu um menino. O batizado foi concorrido. Era ela quem cuidava da paróquia. Garoto robusto. Tempo passando e ele crescendo. Até que um dia perceberam que os olhos da criança não acompanhavam o movimento que a mãe fazia com as mãos. Foi difícil de acreditar, mas o diagnóstico médico foi firme. Ele nascera sem a visão. Desespero total, porém passageiro. D. Ângela, marido e filhos cuidavam da criança com todo amor e carinho, como se nada houvesse. Mas a tristeza não parou aí. Constataram posteriormente que também era muda. Com dificuldade aprendeu a andar apoiando-se nas paredes externas de uma casa simples cercada por pinhão e arame farpado. O garoto era chamado por “Vadinho”. Pela felicidade dele se locomover e ouvir ou para que não piorasse o seu estado, D. Ângela fez uma promessa. Todos os anos, no aniversário do menino ofereceria, no quintal da residência, um almoço para as crianças do bairro. Três tábuas sobre cavaletes como mesa e outras sobre caixotes como bancos. O almoço consistia numa macarronada e refrigerante refrescado. Um prato fundo e um garfo para cada um. Estava feita a festa. O Vadinho era colocado ali por perto, apoiando-se numa parede. A mãe ficava feliz porque percebia o contentamento do filho com a presença das crianças. No final, um bolo de chocolate, um parabéns a você e um pique-pique para o aniversariante. E ele mexia o corpo, como sinal de alegria. O sorriso daquela mãe expressava toda felicidade do mundo. Seu filho andava e não era surdo. Tinha saúde. E os meninos compareciam ao seu aniversário. Cada convidado saía agradecido. Eu ficava por último. Passava a mão na cabeça do festejado: – Tchau Vadinho. Obrigado D. Ângela. No ano que vem a gente volta.

E o aniversariante, como resposta, balançava repetidamente a cabeça. O que ele queria dizer: obrigado?. Não vá ainda?. É cedo?. Fica mais um pouco?. Volte outras vezes?. Brinca comigo? Não sei. Nunca soube. D. Ângela dava uma lição que não se aprende na escola: que a vida deve ser regrada com muita paciência e que felicidade é opção de cada um. É estado de espírito. É preciso olhar para trás. Como dizem os indianos: “quando a cama quebra, temos ainda o chão para dormir”.

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