Encontro realizado pela Escola do Legislativo reuniu especialistas para orientar famílias e profissionais das áreas da saúde e da educação sobre diagnóstico, prevenção, anafilaxia e impactos emocionais
Um alimento, que para a maioria das pessoas representa nutrição e prazer, pode se transformar em uma ameaça em questão de minutos para quem tem alergia alimentar. Para chamar a atenção para os riscos, os cuidados e os impactos provocados pela condição, a Escola do Legislativo “Dulce Whitaker”, da Câmara, em parceria com a Associação Restrições Alimentares Brasil (Reabra), promoveu, nesta segunda-feira (10), das 9h às 12h30, o Seminário “Conhecimento, prevenção e inclusão para uma convivência mais segura com a alergia alimentar”.
O encontro, ocorrido no Plenário da Casa de Leis, contou com a presença do presidente da EL, vereador Michel Kary (PL), que abriu o evento, do vereador Enfermeiro Delmiran (PL), da presidente da Reabra, Maira Figueiredo, e reuniu o alergista e imunologista Eduardo Seneda Lemos, a médica Anne Camargo, a consultora técnica em alimentos do Senai (SP), Jéssica Tavares, e a psicóloga Erika Gomes, que participou remotamente do evento. Os especialistas esclareceram dúvidas, informações equivocadas e apresentaram estratégias para proteger a vida de quem tem a condição mencionada ou convive com o problema.
Mais do que uma restrição alimentar
Longe de ser uma preferência, exagero ou simples restrição alimentar, a alergia é uma resposta do sistema imunológico a determinadas proteínas presentes nos alimentos. A reação pode provocar sintomas como coceira, urticária e inchaço, mas também evoluir rapidamente para dificuldades respiratórias, queda de pressão e anafilaxia, uma emergência médica potencialmente fatal. Entre os alimentos mais associados às reações estão leite de vaca, ovos, trigo, soja, amendoim, nozes, peixes e frutos do mar, de acordo com o infectologista.
Diferença entre alergia e intolerância
Um dos pontos abordados por ele no seminário foi a diferença entre alergia e intolerância alimentar, frequentemente confundidas. “Enquanto a alergia envolve uma reação do sistema imunológico às proteínas do alimento, a intolerância à lactose, por exemplo, está relacionada à dificuldade do organismo em digerir o açúcar presente no leite. Gases, diarreia e distensão abdominal são sintomas comuns da intolerância, que não provoca anafilaxia, como pode ocorrer em uma reação alérgica”, destacou Lemos.
Diagnóstico exige investigação
Identificar corretamente uma alergia alimentar também é fundamental para evitar restrições desnecessárias e garantir uma alimentação adequada, especialmente para crianças. O diagnóstico começa pela história clínica, considerando qual alimento foi consumido, a quantidade, o intervalo entre a ingestão e o surgimento dos sintomas e a repetição das reações. Segundo o infectologista, exames como os testes cutâneos de puntura (prick test) e a pesquisa de anticorpos IgE específicos podem auxiliar na investigação, mas devem ser interpretados dentro do contexto clínico.
No caso dos testes cutâneos e do IgE sérica positiva podem indicar apenas que o corpo produziu anticorpos, mas não confirmam doença sem sintomas clínicos correspondentes. Para os profissionais, na busca por respostas, famílias podem acabar recorrendo a exames e métodos que não têm validade científica para o diagnóstico de alergias alimentares. A utilização dessas alternativas pode gerar resultados equivocados, custos desnecessários e, principalmente, atrasar a identificação correta do problema.
Quando há suspeita de alergia, o Teste de Provocação Oral (TPO) é considerado o padrão-ouro para confirmar ou descartar o diagnóstico, sendo realizado sob supervisão médica e com doses controladas do alimento suspeito.
Anafilaxia exige resposta rápida
Entre os principais alertas, quando se trata de alergias, está a anafilaxia, reação grave que pode comprometer diferentes sistemas do organismo e evoluir rapidamente. Inchaço de lábios, língua ou garganta, dificuldade para respirar, tontura, desmaio, coceira e placas vermelhas pelo corpo e vômitos repetidos estão entre os sinais que exigem atendimento médico urgente, de acordo com a médica Anne Camargo. “Para pessoas com risco de anafilaxia, a adrenalina é o tratamento de primeira linha e deve ser administrada rapidamente, conforme orientação médica e plano de emergência individual”, acrescentou.
Rótulos de produtos industrializados
O seminário abordou também o desafio da leitura dos rótulos de produtos industrializados e a prevenção da contaminação cruzada, temas que estiveram em discussão durante o encontro. Para Jéssica, os fabricantes são obrigados a implementar um rigoroso Programa de Controle de Alergênicos (PCAL) antes de colocar qualquer alerta de risco. “Esse controle exige o mapeamento detalhado da produção, higienização rigorosa das máquinas e monitoramento de fornecedores para evitar o contágio acidental entre diferentes alimentos durante o processo fabril”, afirmou.
Ela acrescentou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu um padrão de doses de referência baseadas na quantidade de proteína que realmente pode desencadear reações na saúde pública. “Essa medida busca impedir a ‘fadiga de alerta’, fenômeno que ocorre quando o aviso está presente em quase todos os produtos, fazendo com que consumidores alérgicos passem a ignorar os riscos ou fiquem sem opções alimentares no dia a dia.”
Além das regras atuais, a gestão de alergênicos é uma prática em contínua evolução. Jéssica disse que o Brasil já se prepara para traçar diretrizes baseando-se em novidades científicas internacionais, contemplando uma nova revisão das normas de rotulagem de alimentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prevista para o ano de 2027.
O impacto também é emocional
A alergia alimentar afeta ainda a saúde emocional de toda a família. A psicóloga Erika Gomes destacou que a necessidade de vigilância constante, a adaptação de receitas, o medo de contatos acidentais e a preocupação com as refeições fora de casa podem gerar ansiedade, estresse e até depressão entre familiares. Para crianças e adolescentes, o impacto pode incluir isolamento e bullying, especialmente em ambientes escolares, festas e outros espaços de convivência, onde a dificuldade de integração pode fazer com que a comida seja vista como uma ameaça.
Mais do que ampliar o acesso à informação, o seminário reforçou a responsabilidade do poder público na construção de políticas que garantam segurança, acolhimento e inclusão às pessoas com alergia alimentar. Isso significa investir em capacitação de profissionais da saúde e da educação, fortalecer protocolos de atendimento e emergência, ampliar a conscientização da população e assegurar ambientes públicos preparados para lidar com a condição.
(Setor de Imprensa – Câmara Municipal de Araraquara)