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Recupera-se a confiança?

José Renato Nalini (*)

Depois de esfacelada, a confiança é suscetível de se recuperar? Aquela concepção de trinca no cristal prevalece nas relações humanas? É confiável aquele que rompeu os laços intangíveis que nos faziam acreditar nele?

Os otimistas dizem que sim. Os realistas dizem que não. Rompido o liame da crença na higidez ética de uma pessoa, ele nunca mais se refaz. As consequências vão muito além da esfera pessoal. Generaliza-se uma descrença que atinge todas as instituições, todos os nichos que ainda guardavam aquilo que se chamou “valor” e que foi substituído pelo interesse.

A ética, matéria-prima de que o Brasil mais se ressente, esteve anêmica durante algum tempo. As tentativas de sua regeneração não deram resultado. Ela foi piorando e estacionou durante um tempo na UTI. Lamentavelmente, veio a óbito. Não existe mais ética no Brasil e, aparentemente, ninguém sente falta dela.

Prevalece o “toma-lá-dá-cá” o “salve-se quem puder”. Os setores que poderiam assumir uma cruzada de restauração ética também estão anestesiados. Inertes. Passivos. Cuidando do seu próprio quintal.

A ética, ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade, foi cultivada na Igreja. Antes disso, era objeto da filosofia. Mas é uma ferramenta prática para tornar a convivência algo civilizado e não a guerra de todos contra todos, na visão de Hobbes cada vez mais próxima à nossa realidade mundial.

O cientista Marcelo Gleiser oferece um exercício bem interessante para quem se vê desalentado. Pensar que a existência humana é uma cadeira com quatro pernas, característica generalizada em quase todas as cadeiras. A ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Deve existir permanente diálogo entre as quatro pernas da cadeira existencial. Sem isso, ela cai. E todas elas têm uma seiva interior chamada ética. Quando a ética desaparece, as quatro pernas também se debilitam e fraturam.

Os humanos sensíveis têm de responder a esse apelo dos humanistas: como recriar a ética, para que a confiança nas instituições se regenere e haja futuro digno e alentador no horizonte de nossas crianças? Quem tiver a receita, por favor, compartilhe conosco.

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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