J. A. Puppio (*)
As sucessivas crises internacionais dos últimos anos tornaram indiscutível que a energia se tornou um centro de disputa global por soberania, estabilidade econômica e segurança nacional. Guerras, tensões geopolíticas e disputas comerciais têm provocado oscilações no preço do petróleo, desestruturando cadeias produtivas inteiras e pressionando a inflação em diversos países ao mesmo tempo.
Nesse cenário de crescente instabilidade, o Brasil ocupa uma posição que poucos países no mundo podem reivindicar. Diferentemente de muitas nações dependentes de combustíveis fósseis importados, o país construiu ao longo de décadas uma matriz energética diversificada e renovável, na qual o etanol se tornou um dos principais símbolos de independência energética.
A história dessa vantagem começa nos anos 1970. Quando o mundo se viu às voltas com a primeira grande crise do petróleo, o Brasil não se limitou a buscar soluções emergenciais. Em 1975, lançou o Proálcool, programa nacional de produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, uma aposta estratégica de longo prazo que demonstrou capacidade de planejamento rara entre as nações emergentes. Enquanto outros países dependiam de acordos externos e remendos fiscais, o Brasil construía uma alternativa energética própria, renovável e com escala industrial.
Décadas depois, aquela visão se mostra mais atual do que nunca. O etanol brasileiro reúne hoje os atributos que o mundo busca com urgência: emissões de carbono significativamente menores do que a gasolina, produção consolidada em larga escala, tecnologia amplamente desenvolvida e enorme capacidade de expansão sustentável.
Há ainda um dado que desfaz um dos maiores equívocos do debate. A cana-de-açúcar ocupa pouco mais de 1% do território nacional. Portanto, o crescimento do setor não se fez destruindo biomas ou avançando sobre florestas, ele se fez com produtividade, modernização agrícola e reaproveitamento de áreas já antropizadas.
Enquanto o mundo busca alternativas energéticas confiáveis, o Brasil já possui uma resposta concreta. Em um ambiente internacional cada vez mais instável, o etanol deixa de ser apenas um combustível renovável e passa a representar uma vantagem estratégica nacional.
O desafio agora é compreender que a liderança brasileira nesse setor não é apenas uma oportunidade econômica. Trata-se de uma oportunidade histórica de protagonismo global que o país não pode desperdiçar.
(*) É empresário e autor do livro “Impossível é o que não se tentou”
(Vervi Assessoria)