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Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão na 78ª Reunião Anual da SBPC

Vanderlan da Silva Bolzani (*)

Com a temática “Ciência para Todos: Soberania, Desenvolvimento e Inclusão”, a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que realizar-se-á entre 26 de julho e 1º de agosto de 2026, em Niterói (RJ), transcende a definição de um tema institucional. Em uma conjuntura marcada por profundas assimetrias econômicas, disputas geopolíticas, transformações tecnológicas aceleradas e desafios ambientais sem precedentes mundial e nacional, essa proposta constitui um convite à reflexão sobre o projeto de nação que o Brasil deseja construir em curto, médio e longo prazo. Mais do que uma pauta da comunidade científica brasileira de todas as áreas, trata-se de um compromisso nacional coletivo e do fortalecimento da democracia, da justiça social e do desenvolvimento sustentável que a SBPC trabalha desde a sua criação e que almejamos levar para as futuras gerações.

Desde sua criação, em 1948, a SBPC consolidou-se como uma das instituições mais relevantes da história contemporânea brasileira. Em um país que, à época, possuía uma estrutura científica incipiente, reduzida capacidade tecnológica e escassa tradição em pesquisa organizada, a Sociedade assumiu o papel de catalisadora da produção do conhecimento e da valorização da educação em todos os níveis. Aqui destaque para o ensino superior, atualmente com cerca de 2580 Instituições de Ensino Superior (IES), credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC), das quais 317 são federais, estaduais e municipais e cerca de 2.264 pertencem ao sistema privado. Estes dados mostram a importância do ensino superior do Brasil neste período e do papel da SBPC que se tornou protagonista na construção do moderno sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação. Ao longo de quase oito décadas, a SBPC reúne atualmente mais de 160 sociedades científicas e milhares de pesquisadores de todas as áreas do conhecimento, participando ativamente da formulação de políticas públicas, da defesa da universidade, da liberdade acadêmica, da democratização do acesso ao conhecimento e da cidadania de um país de dimensões continentais.

Os avanços alcançados pelo Brasil ao longo desse período revelam a importância estratégica desse investimento contínuo. Hoje, o país constitui a maior economia da América Latina, liderando o ranking regional do Produto Interno Bruto nominal, estimado em aproximadamente US$ 2,64 trilhões. Hoje, estamos entre um dos maiores mercados consumidores do mundo, com cerca de 205 milhões de habitantes, cuja demanda interna impulsiona diferentes setores produtivos. Em 2025, o crescimento do PIB alcançou aproximadamente 2,3%, enquanto a expectativa de vida da população chegou a 76,2 anos, indicadores que refletem, em grande medida, os impactos acumulados pela expansão da educação, da ciência, tecnologia, inovação e das políticas públicas vitais para uma sociedade que almeja soberania econômica e social.

O Brasil reúne, ainda, atributos singulares que ampliam seu potencial de desenvolvimento. Sua extraordinária biodiversidade, distribuída em seis biomas (Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Pampa e Caatinga, este último genuinamente brasileiro) associada à vasta extensão territorial, confere vantagens estratégicas para a produção de alimentos, energia, minerais, fármacos, biomateriais e tecnologias sustentáveis. Soma-se a esse patrimônio uma economia diversificada, sustentada por um parque industrial expressivo, um setor de serviços consolidado e um agronegócio altamente competitivo. A indústria nacional permanece entre as mais relevantes da América Latina, demonstrando a capacidade brasileira de agregar valor, gerar empregos qualificados e produzir conhecimento aplicado.

Entretanto, esses indicadores convivem com um paradoxo inquietante. Embora os dados mais recentes do IBGE revelem que cerca de dez milhões de brasileiros tenham superado a condição de extrema pobreza nos últimos anos, o país ainda enfrenta profundas desigualdades sociais, educacionais e regionais. Milhões de cidadãos continuam privados de oportunidades para uma educação de qualidade, de acesso pleno à saúde, à cultura e às tecnologias que caracterizam a sociedade do conhecimento. O crescimento econômico, por si só, não garante inclusão, tampouco assegura soberania.

Ao escolher “Ciência para Todos: Soberania, Desenvolvimento e Inclusão”, a SBPC reafirma uma convicção construída ao longo de seus 78 anos de existência: nenhuma nação alcança desenvolvimento sustentável sem investir de forma contínua em educação, pesquisa científica, inovação e formação de recursos humanos altamente qualificados. Democratizar a ciência significa ampliar oportunidades, estimular talentos, fortalecer instituições e construir uma sociedade em que o conhecimento seja patrimônio de todos, e não privilégio de poucos.

(*) Professora titular do IQ/Unesp, Araraquara, e membro do Conselho da SBPC e da Aciesp

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