No Julho Amarelo, gastroenterologista alerta que boa parte dos pacientes só descobre a infecção quando o fígado já está comprometido, e aponta mudança no perfil de quem procura tratamento
Uma pessoa pode treinar todos os dias, comer bem e se sentir plenamente saudável enquanto o vírus da hepatite se multiplica silenciosamente em seu fígado. É esse o alerta central que profissionais de saúde reforçam neste Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais. Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, o país já soma mais de 826 mil casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2024, sendo a hepatite C responsável por 41,5% dos diagnósticos e a hepatite B por 36,6%.
O boletim, divulgado pela pasta como parte da campanha nacional “Um Teste Pode Mudar Tudo”, também mostra avanços: entre 2014 e 2024, a mortalidade por hepatite B caiu 50% no país, e a por hepatite C, 60%. A meta do Brasil, alinhada a recomendações da Organização Mundial da Saúde, é reduzir os óbitos por hepatites virais em 65% e a incidência em 90% até 2030.
Para o gastroenterologista Alberto Falabella, professor do IDOMED, os números recentes confirmam algo que ele observa há anos no consultório, a maior parte das pessoas infectadas não sabe que tem a doença. “As hepatites crônicas B e C podem levar de 20 a 30 anos sem causar um único sintoma, inflamando o fígado silenciosamente até evoluir para cirrose ou câncer”, explica. Segundo o médico, o erro mais comum entre pacientes é acreditar que a hepatite sempre se manifesta com icterícia, a pele e os olhos amarelados. “Muita gente pensa que, se não sente dor e não está amarela, o fígado está saudável. Não é bem assim.” Quando os sinais aparecem, geralmente já na fase aguda ou em estágio avançado, os mais comuns são cansaço extremo e sem explicação aparente, urina escura, fezes claras e dor abdominal do lado direito superior, além da própria icterícia.
Outro equívoco frequente, segundo o especialista, é associar a transmissão apenas a agulhas compartilhadas ou contato sexual. Instrumentos do dia a dia como alicates de unha e lâminas de barbear, além de procedimentos estéticos como tatuagem e micropigmentação feitos sem esterilização adequada, também podem transmitir o vírus. Falabella observa ainda uma mudança no perfil dos pacientes nos últimos anos, se antes a hepatite estava muito ligada a transfusões de sangue e ao uso de drogas injetáveis, hoje o consultório recebe mais casos de hepatite A em adultos jovens, geralmente por transmissão fecal-oral em práticas sexuais ou por água e alimentos contaminados. Ele cita também o crescimento da esteato-hepatite, forma de doença hepática ligada à obesidade e ao diabetes, que passou a disputar espaço com as hepatites virais nos atendimentos.
O médico chama atenção para dois grupos específicos. Adultos com mais de 50 anos, segundo ele, deveriam testar obrigatoriamente para hepatite C, já que podem ter sido infectados antes de os bancos de sangue adotarem triagem rigorosa. Jovens sexualmente ativos também exigem atenção redobrada, diante do aumento de casos de hepatite B e A transmitidos por via sexual.
Prevenção e diagnóstico ao alcance do SUS
A vacinação segue como a forma mais eficaz de prevenção, disponível gratuitamente no SUS contra as hepatites A e B – a vacina contra a B também protege indiretamente contra a hepatite D. No cotidiano, Falabella recomenda não compartilhar objetos de higiene pessoal, exigir material esterilizado ou descartável em estúdios de tatuagem, manicures e consultórios odontológicos, usar preservativo em todas as relações sexuais e manter higiene rigorosa das mãos e dos alimentos, medida especialmente importante contra a hepatite A.
O diagnóstico é feito por teste rápido de sangue, disponível gratuitamente na rede pública, ou por exames de sorologia laboratorial. O tratamento, segundo o médico, mudou de patamar nos últimos anos, a hepatite C tem cura em até 95% dos casos com antivirais orais tomados por 8 a 12 semanas, praticamente sem efeitos colaterais. Já a hepatite B, embora raramente tenha cura virológica completa, conta com tratamentos que interrompem a replicação do vírus e permitem uma vida normal. As hepatites A e E não têm tratamento antiviral específico – o organismo elimina o vírus sozinho, e o cuidado médico se concentra no suporte aos sintomas.
“A hepatite é uma inimiga oculta. Fazer o teste rápido pode salvar a sua vida. O exame é gratuito, indolor, fica pronto em minutos e, se der positivo, a hepatite C tem cura e a hepatite B tem tratamento”, resume Falabella.
(Conceito Comunicação)
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