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Brasil cede as bases ao PIX de 60 países

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves (*)

Embora figure como ponto sensível no contencioso econômico entre Estados Unidos e Brasil, o PIX — sistema de pagamentos e transferências instantâneas que, nos últimos anos, reduziu drasticamente o uso de cheques, TEDs e outras formas tradicionais de movimentação financeira — deverá, em breve, tornar-se referência para o relacionamento financeiro entre cerca de 60 países.

Ainda que o governo norte-americano pressione o Brasil em relação ao avanço dos pagamentos eletrônicos, influenciado por interesses de bancos e operadoras de cartões de crédito, os Estados Unidos também participam das discussões internacionais sobre a construção de um sistema mundial de transferências e pagamentos instantâneos. Ao lado do Brasil, Portugal, Argentina, Japão e outros parceiros, integram iniciativas como a plataforma Nexus, coordenada pelo Banco de Compensações Internacionais.

Até o momento, esse sistema ainda não opera de forma automática e plenamente integrada, como prevê o projeto. No entanto, a expectativa é que, em pouco tempo, clientes de diferentes países possam enviar valores ao exterior com mais facilidade, depositando a moeda local — como o real, no caso brasileiro — para que o destinatário receba o valor convertido na moeda de seu país, com menos burocracia, menor custo e maior agilidade.

Respeitadas as proporções, o chamado PIX internacional poderá ter efeito semelhante ao de plataformas como Uber e aplicativos de entrega, que reorganizaram serviços tradicionais, ampliaram o acesso da clientela e tornaram as operações mais simples e competitivas. A previsão é que, em breve, esse modelo avance para uma fase mais concreta de funcionamento, com potencial para disputar espaço com mecanismos tradicionais de remessas internacionais.

O uso do PIX, felizmente, já se mostrou irreversível e universal dentro do Brasil. Agora, diante da possibilidade de expansão internacional, os países envolvidos deverão sentar-se à mesa para alinhar seus interesses econômicos, regulatórios e estratégicos. Medidas rigorosas também precisarão ser adotadas para tornar as operações cada vez mais seguras, impedindo a lavagem de dinheiro não apenas pelo crime organizado, mas também por pessoas e empresas que tentem utilizar o sistema para fraudes ou movimentações de valores de origem ilícita.

O PIX foi lançado pelo Banco Central do Brasil em 16 de novembro de 2020. Concebido como sistema de pagamentos instantâneos, rapidamente se consolidou como uma das maiores inovações financeiras do país, alcançando mais de 140 milhões de usuários e tornando-se referência para estudos de integração internacional.

A criação de um sistema de pagamentos mais universalizado também poderá influenciar as relações geopolíticas. Os países participantes do mercado internacional passariam a contar com meios mais ágeis e menos custosos para realizar transações, o que poderia reduzir tensões comerciais e facilitar acordos econômicos. Nesse sentido, a inovação pode representar um contraponto a medidas de pressão, como tarifas impostas por grandes potências para defender seus próprios interesses.

A participação dos Estados Unidos nesse processo também merece atenção. Ao mesmo tempo em que o país defende a centralidade do dólar como moeda internacional, blocos como o Brics — do qual o Brasil faz parte — discutem alternativas para reduzir a dependência da moeda norte-americana em transações globais. Um sistema internacional de pagamentos instantâneos, se bem estruturado, poderá servir como ponto de convergência entre interesses distintos, evitando que divergências monetárias se transformem em conflitos econômicos mais profundos.

A política desenvolvida pelo presidente Donald Trump para a América Latina possui várias facetas. Uma delas está relacionada à reorganização das relações comerciais e financeiras. Outra envolve o uso de tarifas sobre mercadorias como forma de pressão econômica. Embora tais medidas possam forçar renegociações, não representam necessariamente instrumentos pacíficos ou equilibrados de relacionamento internacional.

Não se deve ignorar, ainda, que um dos grandes desafios nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina continua sendo o narcotráfico. As drogas produzidas em determinados países da região são transportadas para o mercado norte-americano, fortalecendo organizações criminosas e ampliando tensões diplomáticas. No caso brasileiro, preocupa especialmente o uso de rodovias, rotas internas e portos — em particular o Porto de Santos — para o escoamento de mercadorias ilegais.

Espera-se, portanto, que as relações internacionais, especialmente entre Brasil e Estados Unidos, caminhem em melhores condições daqui em diante. As divergências ideológicas entre governos de direita e de esquerda, sejam eles comandados por Donald Trump, Lula da Silva ou seus sucessores, não devem colocar os dois maiores países do continente americano em rota de colisão. A manutenção da paz, da cooperação econômica e da segurança financeira é fundamental para todos.

(*) É dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

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