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Lipedema ganha espaço no debate público em roda de conversa na Câmara de Araraquara

Encontro convocado pela vereadora Fabi Virgílio (PT) reuniu especialistas e participantes para conscientizar a população sobre uma doença que afeta milhares de mulheres e ainda é pouco conhecida

A importância do diagnóstico precoce, da escuta qualificada e do tratamento multidisciplinar do lipedema esteve no centro da roda de conversa “Nutrição como aliada no cuidado do lipedema”, realizada na quinta-feira (2), no Plenário da Câmara Municipal de Araraquara. A iniciativa da vereadora Fabi Virgílio (PT), com base na Lei Municipal nº 11.752/2025, reuniu especialistas e participantes para esclarecer dúvidas, compartilhar experiências e ampliar a conscientização sobre a doença do tecido gorduroso que atinge cerca de uma em cada dez mulheres e ainda é frequentemente confundida com obesidade.

Fabi explicou que o tema chegou ao seu gabinete por meio do relato de uma amiga que enfrentava dificuldades para conseguir diagnóstico e tratamento. “A partir daí entendemos que era preciso abrir esse espaço de diálogo. O importante é fazer com que esse debate aconteça e que mais pessoas tenham acesso à informação”, explicou a parlamentar.

Doença ainda pouco conhecida

O lipedema é uma doença crônica do tecido gorduroso, caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura principalmente nas pernas e, em alguns casos, também nos braços. A condição provoca dor, inchaço, sensação de peso e pode evoluir para limitações funcionais quando não tratada.

Reconhecida oficialmente no Cadastro Internacional de Doenças (CID) em 2022, a enfermidade ainda enfrenta o desafio do desconhecimento entre profissionais de saúde e pela população. Uma de suas principais características é a desproporção entre o tronco e os membros inferiores, o que ajuda a diferenciá-la da obesidade.

Atendimento humanizado

Para compreender a complexidade da doença, a médica Ana Flávia Andrade, referência no tratamento de lipedema e medicina esportiva em Ribeirão Preto, destacou que muitas pacientes passam anos em busca de respostas antes de receberem o diagnóstico correto. Segundo ela, essa demora favorece o agravamento dos sintomas e também provoca impactos emocionais importantes.

“O grande desafio é ouvir quem está sofrendo. Muitas mulheres passam anos procurando respostas porque sabem que existe algo errado, sentem dores, hematomas e falta de força nas pernas, mas acabam desacreditadas. O lipedema não é apenas uma questão estética. É uma doença que precisa ser reconhecida”, pontuou. A especialista ressaltou que o tratamento deve envolver médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e educadores físicos, além de considerar fatores como alimentação, estresse e saúde emocional.

Alimentação como aliada

Diante desse cenário, a nutrição surge como um dos pilares do tratamento. A nutricionista Silvia Bambozzi, especialista em emagrecimento e saúde da mulher, explicou que o lipedema não tem cura, mas pode ser controlado com mudanças permanentes no estilo de vida. Ela destacou que a redução do percentual de gordura corporal é um dos principais objetivos do tratamento, sempre respeitando as necessidades individuais de cada paciente.

“O objetivo da nutrição é ajudar no emagrecimento e controlar a doença. Não existe dieta milagrosa. É preciso construir uma alimentação que a pessoa consiga manter por toda a vida”, declarou. Silvia também reforçou a importância da hidratação, da prática regular de exercícios físicos e da redução do consumo excessivo de carboidratos, sem eliminá-los completamente da alimentação.

Impacto na vida das pacientes

A participante Ana Paula dos Santos compartilhou sua trajetória até descobrir o lipedema. Durante anos, conviveu com dores constantes, inchaço e a frustração de não conseguir reduzir o volume das pernas e dos braços, mesmo seguindo dietas e praticando exercícios físicos. Somente após receber o diagnóstico correto e iniciar acompanhamento especializado, percebeu uma melhora significativa na qualidade de vida.

“Eu fazia dieta e exercício, emagrecia o rosto, a cintura, mas minhas pernas e braços não acompanhavam. Era muito frustrante. Hoje entendo que o lipedema exige um tratamento multidisciplinar e consegui recuperar a esperança de viver melhor”, relatou.

Ao reunir profissionais de diferentes áreas e pacientes que convivem diariamente com a doença, a roda de conversa reforçou a importância da informação como ferramenta de cuidado. Além de esclarecer dúvidas sobre diagnóstico, sintomas e tratamento, o encontro buscou ampliar o conhecimento da população e incentivar mulheres com sinais da doença a procurarem avaliação médica precoce, favorecendo um tratamento mais eficaz e melhor qualidade de vida.

Lipedema: mitos e verdades

Mito: Lipedema é a mesma coisa que obesidade. Verdade: São doenças diferentes. Enquanto a obesidade provoca acúmulo de gordura em todo o corpo, o lipedema se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços, preservando geralmente pés e mãos.

Mito: Existe um exame específico para diagnosticar o lipedema. Verdade: O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um médico capacitado, por meio da avaliação dos sintomas, do histórico da paciente e do exame físico.

Mito: O lipedema tem cura. Verdade: O lipedema é uma doença crônica e não tem cura. No entanto, quando diagnosticado precocemente e tratado corretamente, é possível controlar os sintomas, reduzir as dores, melhorar a mobilidade e proporcionar mais qualidade de vida.

Mito: Basta emagrecer para eliminar o lipedema. Verdade: A redução do percentual de gordura ajuda a controlar a doença e aliviar os sintomas, mas não elimina o lipedema. A tendência ao acúmulo de gordura localizada permanece porque se trata de uma alteração do tecido adiposo.

Mito: O tratamento depende apenas do médico. Verdade: O tratamento é multidisciplinar. Médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, educadores físicos e, em alguns casos, psicólogos trabalham juntos para controlar a doença e melhorar a qualidade de vida da paciente.

Mito: Quem tem lipedema deve eliminar completamente os carboidratos. Verdade: Não é necessário excluir os carboidratos da alimentação. O mais importante é reduzir o consumo excessivo e adotar uma dieta equilibrada, individualizada e que possa ser mantida ao longo da vida.

Mito: Existem alimentos que causam lipedema. Verdade: Nenhum alimento causa o surgimento da doença. Porém, alimentos ricos em açúcar, álcool e ultraprocessados podem agravar a inflamação e intensificar sintomas como dor e inchaço em quem já possui lipedema.

Mito: Exercícios físicos pioram o lipedema. Verdade: A prática de exercícios é uma importante aliada do tratamento. A musculação e os exercícios aeróbicos, quando orientados por profissionais, ajudam na redução do percentual de gordura e na melhora da circulação. No início, pode haver aumento temporário do volume muscular, mas isso faz parte da adaptação do organismo.

Mito: Beber pouca água ajuda a diminuir o inchaço. Verdade: O efeito é o contrário. A hidratação adequada reduz a retenção de líquidos e auxilia no controle dos sintomas do lipedema.

Mito: O estresse não interfere no lipedema. Verdade: O estresse pode agravar os sintomas. Alterações hormonais, especialmente relacionadas ao cortisol, favorecem processos inflamatórios e podem aumentar o inchaço e a dor.

Mito: A cirurgia é a única solução. Verdade: O tratamento começa com medidas conservadoras, como alimentação adequada, exercícios físicos, drenagem linfática e controle hormonal. A cirurgia pode ser indicada apenas em casos específicos e após avaliação médica.

Mito: O lipedema pode virar elefantíase. Verdade: Não. São doenças completamente diferentes. O lipedema não se transforma em elefantíase. Entretanto, quando não tratado, pode comprometer a circulação e favorecer o surgimento de problemas circulatórios.

Mito: O lipedema evolui para outras doenças. Verdade: O lipedema permanece sendo lipedema. A doença não se transforma em outra enfermidade, mas pode evoluir, agravando dores, limitações físicas e alterações na circulação caso não seja tratada adequadamente.

Mito: Qualquer anticoncepcional piora o lipedema. Verdade: Nem todos. Segundo a médica Ana Flávia Andrade, anticoncepcionais combinados que contêm estrogênio podem agravar o quadro em algumas pacientes predispostas. Por isso, a escolha do método contraceptivo deve ser individualizada e acompanhada pelo médico.

Mito: O lipedema aparece apenas por causa dos hormônios. Verdade: Os hormônios não são a causa da doença. O que os estudos indicam é que as grandes mudanças hormonais da vida da mulher podem desencadear ou intensificar os sintomas em quem possui predisposição genética.

Mito: O lipedema surge de repente. Verdade: Na maioria dos casos existe predisposição genética. A doença costuma se manifestar ou piorar em fases de intensa alteração hormonal, como puberdade, gestação e menopausa.

Mito: O lipedema é raro. Verdade: A doença é mais comum do que se imagina. Estima-se que cerca de 12,3% das mulheres brasileiras convivam com o lipedema, embora muitas ainda não tenham recebido o diagnóstico correto.

Para ver e rever

O evento foi transmitido ao vivo pela TV Câmara e está disponível na íntegra no Facebook e no YouTube.

(Setor de Comunicação – Câmara Municipal de Araraquara)

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