Atividade, organizada pela Escola do Legislativo, faz parte do Fórum Municipal de Diversidade e Cidadania LGBTQIA+ e traz reflexões sobre o tema
Entender a sigla LGBTQIAPN+ é muito mais que saber o significado de cada letra, é entender a importância política e social de dar visibilidade e voz às pessoas que são representadas por ela. Esse foi um pensamento compartilhado pelos palestrantes do minicurso “Entendendo a sigla LGBTQIAPN+”, promovido pela Escola do Legislativo “Dulce Whitaker”, que aconteceu na terça-feira (09) na Câmara Municipal.
Durante a atividade, Antonio Ianni Segatto (professor da Unesp/FCLAr), Leticia Thais da Silva (mestranda em Ciências Sociais na Unesp/FCLAr) e Hilda Catharina Ruggiero Amaral (graduanda em Ciências Sociais na Unesp/FCLAr) apresentaram o contexto histórico que propiciou o surgimento da sigla, explicaram o significado de cada letra que a compõe e trouxeram discussões teóricas sobre termos como sexo, gênero e orientação sexual.
Revolta de Stonewall
Segatto destacou que, em 28 de junho 1969, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ que se reuniam no Bar Stonewall, em Nova York, nos Estados Unidos, se revoltaram contra a repressão policial sofrida na época. A ação gerou diversos outros protestos e movimentos, inclusive em outros países, com a criação de grupos em defesa dos direitos civis das pessoas “homessexuais”, palavra que na época se referia a todas as pessoas com identidade dissidente, conforme explicado pelo professor.
A partir desse acontecimento, a data começou a ser marcada todos os anos por atos de protestos, houve o surgimento da Parada LGBT+, e, por isso, 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. A sigla inicialmente era GLT, representando as palavras Gays, Lésbicas e Travestis. Com o tempo, novos termos foram acrescentados para dar visibilidade às diversas identidades existentes, com o símbolo “+” deixando a lista aberta.
Afinal, o que significa a sigla?
- L – Lésbicas: mulheres que sentem atração sexual e/ou afetiva por outras mulheres.
- G – Gay: homens que se sentem atração sexual e/ou afetiva por outros homens.
- B – Bissexuais: pessoas que sentem atração sexual e/ou afetiva por mais de um gênero.
- T – Transgêneros: pessoas que não se identificam com seu gênero biológico e assumem uma identidade diferente da atribuída ao nascer. Nesse grupo estão ainda as travestis, que não se reconhecem no gênero masculino, mas em uma expressão de gênero feminina.
- Q – Queer: identidades e expressões de gênero e sexualidade que não se encaixam nas normas da heteronormatividade (de heterossexualidade ou binarismo de gênero), como drag queens.
- I – Intersexo: pessoas nascidas com características biológicas (genitais, hormônios, etc.) que não se enquadram nas definições típicas de sexo masculino ou feminino.
- A – Assexuais, agênero ou arromânticos: aqueles que não sentem atração sexual por outras pessoas.
- P – Pansexuais e polissexuais: indivíduos que sentem atração sexual e/ou afetiva por outras pessoas, independentemente do gênero ou identidade de gênero.
- N – Não binários: pessoas que não se identificam com nenhum gênero, ou que se identificam com vários gêneros.
- + – O “+” representa outras identidades e orientações sexuais não mencionadas na sigla e gêneros fluidos, reconhecendo a vasta diversidade que existe.
Sexo, gênero e orientação sexual
Segatto também trouxe reflexões sobre o termo “sexo biológico”, aquele definido como masculino ou feminino, conforme fatores anatômicos, cromossômicos e hormonais. De acordo com o professor, cada critério é utilizado em determinados contextos. Como exemplo citou o Comitê Olímpico, que avaliava atletas femininas a partir da anatomia e, posteriormente, começou a utilizar exames hormonais.
A sexóloga Anne Fausto-Sterling foi citada para refutar a ideia de que o termo sexo biológico é equivalente a natural, pois desenvolveu uma teoria de que poderiam existir ao menos cinco categorias de sexo, e não apenas feminino e masculino, a partir das diversas características encontradas em diferentes corpos, como em indivíduos intersexo.
Segatto também destacou a obra de Thomas Laqueur, autor de “Inventado o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud”, que aborda a teoria do “sexo único”, a qual foi válida e dominante desde a Antiguidade até o século 17 e considerava as anatomias, hoje descritas feminina e masculina, como sendo a mesma, apenas com órgão invertidos. “A maneira de entender corpos hoje, como feminino e masculino, é recente. Tem apenas 300 anos”, destacou.
Assim, o professor afirmou que o sexo chamado biológico, na verdade, não é natural, é construído culturalmente. “Se o critério para definir é arbitrário, dependendo da situação, o chamado sexo biológico não é natural”, frisou.
Em relação ao gênero, Leticia afirmou que é ele construído por comportamentos diários, como escolha de vestuário e acessórios. Como referência teórica, ela cita Judith Butler, filósofa que considera o gênero uma construção social, um ato performativo. “Quando eu coloco um brinco grande, por exemplo, eu sei como vai ser lido”, destacou. Além disso, Leticia ressalta que a existência é fluida, assim como as relações de gênero, sendo que uma pessoa pode se identificar como mulher em um momento, e depois como pessoa não binária, por exemplo.
A mestranda também abordou o termo “orientação sexual”, relacionando-o às relações de afeto. Assim, a orientação pode ser a forma como as pessoas se relacionam afetivamente e/ou sexualmente umas com as outras, se elas se relacionam com pessoas do mesmo gênero, de gêneros diferentes ou ambos, por exemplo.
Letícia também falou sobre a palavra “queer”, que no passado era considerada uma injúria, significando pejorativamente algo fora do comum, anormal/doente. Com o passar do tempo, a palavra começou a ser usada como símbolo de resistência e orgulho e até entrou para o meio acadêmico dando nome à teoria estudada e desenvolvida por teóricos como Judith Butler.
Hilda Catharina trouxe o termo “corpo atípico”, como sendo aquele que não é aceito pela normatividade, citando como exemplo os corpos das pessoas representadas pela sigla LGBTQIAPN+ e justificando a importância da sigla como uma forma de encaixar esses corpos politicamente. “Mesmo sem os nomes, eles existiam, mas sem potência”, afirmou.
Ela também destacou que não são apenas os corpos LGBTQIAPN+ que se utilizam de ações e intervenções para reafirmar seu gênero, como exemplo, ressaltou que mesmo homens e mulheres que não são transgêneros realizam intervenções, como maquiagem, depilação, implante capilar e outros comportamentos para reforçarem mais o gênero com o qual se identificam. “No fim, o gênero é constituído apenas pelas nossas ações. Todos os corpos, sendo eles típicos ou atípicos, constituem seus gêneros por ações”, concluiu Hilda.
Fórum Municipal de Diversidade e Cidadania LGBTQIA+
A atividade foi gratuita, com emissão de certificado aos participantes, e integrou a programação do Fórum Municipal de Diversidade e Cidadania LGBTQIA+, criado pela Resolução nº 537/2024 para promover o reconhecimento, a inclusão e os direitos da comunidade LGBTQIA+.
(Setor de Imprensa – Câmara Municipal de Araraquara)